Filmar a realidade é estar aberto
para imprevistos e mudar os planos conforme a realidade filmada se transforma e
impacta as vidas dos sujeitos documentados. É isso que acontece em Cartum, cuja premissa inicial era
acompanhar a vida de cinco pessoas do Sudão de diferentes idades e origens para
acompanhar suas vidas e o que pensavam do país. Um golpe militar seguido de uma
guerra civil muda os planos do documentário, já que tanto a equipe quanto os
personagens são deslocados de seus territórios. Fora do Sudão, os realizadores
e personagens comentam sobre como sobreviveram e o que ainda esperam do futuro.
Mediando memórias
O filme gira em torno de cinco
personagens. Os garotos Lokain e Wilson, que vivem de coletar material
reciclável, o servidor público Madji, a vendedora de chá Khadmalla e o ativista
político Jawad. Usando chroma-key, o
filme tenta fazer os sujeitos recriarem suas experiências antes e durante a
guerra, recorrendo também a imagens captadas pelo documentário antes de guerra
eclodir e que são comentadas pelos participantes.
Acompanhando o funcionamento da
cozinha solidária do MTST, o documentário Não
Existe Almoço Grátis narra as histórias das mulheres responsáveis por ela e
também pelo modo como o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto constrói um senso
de cooperação e coletividade com seus membros.
Alimentação coletiva
O documentário foca em três
mulheres responsáveis pela cozinha solidária do MTST na periferia de Brasília:
Socorro, Jurailde e Bizza. Acompanhamos o cotidiano delas na cozinha enquanto
se preparam para servir um número grande de pessoas no dia da posse de Lula em
janeiro de 2023. Somado ao cotidiano na cozinha e da preparação para o evento,
o documentário conta as histórias pessoais dessas mulheres e também das tensões
em Brasília por conta de movimentos golpistas que não aceitavam o resultado das
eleições de 2022.
No início dos anos 2000 o
jornalista Chris Hansen ficou famoso com o programa To Catch a Predator. Nele, atores se passavam por adolescentes e
entravam online para conversar com pessoas reais que se interessariam por ter
contato sexual com menores de idade, marcavam encontros com essas pessoas que
eram então surpreendidas por Hansen, que apresentava o histórico das conversas
e trazia a polícia para prender os sujeitos. Ao mesmo tempo em que o programa
chamou atenção para os perigos de deixar menores soltos na internet, o programa
também é questionado por seus métodos e como busca mais sensacionalismo do que
transformação. O documentário Predators, que chegou no Brasil via Paramount+, vai justamente questionar o legado do programa
Investigação espetacularizada
O filme abre com cenas de um dos
programas de Hansen, com câmera dividida mostrando a atriz recebendo o
investigado numa casa vazia, já seus pais estariam viajando, enquanto outras
câmeras mostram Hansen se preparando em outro cômodo e a polícia esperando do
lado de fora. Quando Hansen entra em cena, é visível que o interesse não é questionar
ou ouvir o investigado, é desmoralizar o sujeito. O investigado tenta ir embora
e assim que sai da casa é cercado por dezenas de policiais.
Há quase três décadas a trupe
liderada por Johnny Knoxville testa os limites de seus corpos e do bom gosto na
televisão e no cinema com Jackass.
Agora próximo aos sessenta anos e sentindo o peso dos vários danos ao seu
corpo, Knoxville apresenta esse Jackass:
O Último é o Melhor como a derradeira obra do grupo, embora venha dizendo
isso faz uns dois ou três filmes.
Tempo perdido
Embora venha há tempos dizendo
que seu próximo trabalho será o último, aqui o tom é mais de desfecho que
qualquer outro Jackass. O filme apresenta vários momentos de introspecção de
Knoxville e sua trupe na qual ponderam sobre o percurso até aqui, as maluquices
que fizeram e todo o dano que já sofreram. São momentos que oferecem respiros
ao caos e escatologia típicos do grupo e permitem lançar outra luz sobre eles,
na qual eles conversam sobre envelhecimento, os limites do corpo e até o
próprio legado. Esses momentos poderiam ser o principal elemento do filme, mas
não são aproveitados como deveriam, com a câmera rapidamente cortando quando
alguém se emociona ou não dando muito espaço para algumas questões que são
abordadas de maneira muito passageira, como o falecimento de Ryan Dunn ou os
problemas que alguns membros do grupo, como Steve-O tiveram ao longo dos anos.
Se documentários true crime já viraram um gênero por si
só, documentários true crime sobre
seitas são um subgênero constante em catálogos de streaming. Produzida pela Netflix, a série Confie em Mim: O Falso Profeta é o mais novo exemplar desse
formato.
Pela bandeira do paraíso
A narrativa é contada por
Christine Marie, psicóloga especializada em seitas que se mudou para uma cidade
na fronteira entre Utah com o Arizona depois da prisão de Warren Jeffs, líder
de uma seita mórmon fundamentalista. Christine e o marido, o cineasta Tolga
Katas, se mudam para a cidade para ajudar as famílias enredadas na seita,
aproveitando o vácuo de poder deixado pela prisão de Jeffs. O que eles não
contavam era a rápida ascensão de um novo líder e autoproclamado profeta em
Samuel Bateman, que logo continuou as crenças fundamentalistas de Jeff de
casamento plural, incluindo com meninas menores de idade, e uma série de outras
condutas abusivas. Christine e o marido conseguem se aproximar de Samuel e usam
a ideia de fazer um documentário sobre ele para registrar provas que enviam
para as autoridades.
Os anos de pandemia foram tão
traumáticos que às vezes sinto que não sou a mesma pessoa que eu era antes da
contaminação global de COVID-19. Aqui no Brasil, especificamente, tivemos que
lidar com um governo anti-ciência que se recusava a seguir as recomendações
sanitárias recomendadas e, ao invés disso, insistia em manter tudo funcionando
sob a justificativa de “não prejudicar a economia” e inventava tratamentos
milagrosos que não funcionavam e que não conseguiram nem evitar mortes, nem
preservar a economia. O resultado foram mais de setecentos mil mortos e um
atraso no início da vacinação. Em 2021 a Comissão Parlamentar de Inquérito
(CPI) da COVID-19, ocorrida no âmbito do senado federal serviu para lançar luz
nos desmandos, omissões e incompetência do governo federal de então e é sobre
isso que trata o documentário Anatomia do
Caos.
Holocausto brasileiro
O documentário acompanha os
trabalhos da CPI da COVID, construindo uma linha do tempo das investigações e
contextualizando os eventos pandêmicos que aconteciam no Brasil enquanto a CPI
se desenrolava. A produção recorre a imagens feitas durante a CPI, além de
imagens de arquivo com reportagens e falas do então presidente Jair Bolsonaro.
O documentário traz também imagens de bastidores dos senadores que lideravam a
CPI, como Randolfe Rodrigues, Renan Calheiros e Omar Aziz, nos dando um inédito
vislumbre nas articulações de como eles debatiam o que investigar, analisavam
os fatos descobertos ou se preparavam para inquirir depoentes.
Um policial no interior do Texas
para uma mulher dirigindo em alta velocidade. Ela está muito agitada e diz que
está indo para o hospital depois de realizar o próprio parto dentro do carro. O
bebê ainda está envolto em fluido e com o cordão umbilical, mas os socorristas
que chegam não encontram indícios de que houve um parto ou de que a mulher
sequer estava grávida. No hospital ela se recusa a passar por exames físicos
para comprovar a gravidez e a polícia começa a investigar quem é o bebê que
estava com ela. Assim começa Instinto
Materno, documentário true crime da
Netflix, cuja história só fica mais sombria e bizarra conforme a trama avança.
Instinto selvagem
A trama é centrada em Taylor
Parker, uma jovem mulher do interior do Texas e da rede de mentiras que ela
construiu em torno de si. Ela começa a namorar Wade, um pequeno agricultor, e
lhe diz que tem uma herança enorme para receber, mas que sua mãe a está
impedindo de receber o que é devido. Convencendo ele e a família dele de que
milhões estão à caminho, eles compram carrões e vários outros luxos, iniciando
até o processo de adquirir uma fazenda de vinte milhões de dólares. Quando o
dinheiro obviamente não chega, ela conta que está grávida para manter Wade
interessado. O problema é que Taylor não está grávida e não pode engravidar,
tendo feito uma histerectomia anos antes. Assim, ela passa a buscar meios de
manter as mentiras de pé.
Conheço pouco do universo do
xadrez, cheguei a jogar um pouco no ensino médio, mas sou uma pessoa muito
ansiosa para o ritmo do jogo. Conheço algumas das grandes figuras do xadrez do
século XX como Bobby Fischer, Garry Kasparov, Boris Spassky (cuja disputa com
Fischer foi retratada no filme O Dono do Jogo) ou Anatoly Karpov, então costumo me interessar por histórias sobre o
xadrez competitivo. O que me atraiu para este A Rainha do Xadrez foi o resgate da história de uma figura feminina
que venceu os maiores jogadores e ainda assim não é tão conhecida fora do meio.
Rainha em jogo
O documentário acompanha a
trajetória da enxadrista húngara Judit Polgar, a única mulher a entrar para o
top 10 dos rankings de jogadores de xadrez e uma das poucas pessoas a derrotar
o grão mestre Garry Kasparov. A narrativa acompanha Judit desde a infância,
explicando como o pai dela decidiu fazer um experimento de como criar filhos
que fossem excepcionais em algo e desde de pequenas criou as três filhas para
serem jogadoras de xadrez. A partir daí vemos a ascensão de Judit, ganhando
competições femininas internacionais, quebrando o recorde de Bobby Fischer ao
se tornar a pessoa mais jovem a chegar ao ranking de grão mestre no xadrez e
passar a competir com homens.
Músico de trajetória longeva, com
experiência em educação e fundador da Orquestra Rumpilezz, Letieres Leite não é
influente apenas na música baiana, tendo trabalhado com artistas de diferentes
lugares do Brasil e do mundo. O documentário As Travessias de Letieres Leite tenta dar conta dos caminhos
formativos que contribuíram para sua trajetória singular.
Caminho ancestral
O documentário parte de uma longa
e inédita entrevista com o Letieres Leite, falecido em 2021, para mostrar as
várias influências na produção musical e ensino do maestro, culminando em seus
projetos com a orquestra Rumpilezz. Estruturalmente é bem típico de
documentários sobre artistas, com entrevistas e imagens de arquivo articuladas
pela montagem, mas seu grande mérito é conseguir dar conta da trajetória do
biografado de maneira que saímos entendendo seu grande impacto para a música e também
como diferentes vivências, do trabalho com artes plásticas às suas experiências
com religiões afro brasileiras, orientaram seu trabalho musical.
Antes de falar qualquer coisa
sobre Feiraguay preciso ser
transparente e dizer que o diretor, Francisco Gabriel Rêgo, foi meu colega de
doutorado e é um amigo próximo, então o que tenho a dizer sobre o filme não tem
como ser um olhar plenamente distante ou imparcial sobre o documentário.
Feira do povo
Como o título diz, o documentário
é sobre o Feiraguay, área de comércio popular na cidade de Feira de Santana,
interior da Bahia. A narrativa conta a história de como o Feiraguay se tornou o
marco da cidade que é hoje ao mesmo tempo em que pondera sobre o papel das
feiras e áreas de comércio popular em áreas urbanas e os vários tensionamentos
que emergem dentro de um espaço tão diverso.
Falecido em
2025, o cineasta Alagoano Cacá Diegues foi um dos integrantes do Cinema Novo
capitaneado por Glauber Rocha e permaneceu ativo até seus últimos anos.
Dirigido por Lírio Ferreira (de Baile Perfumado) e Karen Harley (de Lixo
Extraordinário), o documentário Para Vigo Me Voy! examina de maneira
afetuosa a trajetória do realizador.
País do carnaval
O filme reconta
a trajetória de Diegues, explicando como ele começou a produzir filmes e as
produções que inspiraram o movimento do Cinema Novo, como os filmes de Nelson
Pereira dos Santos. A produção transita entre imagens do cotidiano de Diegues,
feitas nos seus últimos, incluindo até bastidores da continuação de Deus é
Brasileiro (2003), articulando isso com imagens de arquivo do diretor em
entrevistas e outras situações e com cenas de seus filmes.
Como lidar com a perspectiva de
morte iminente? O que fazer quando sabemos que temos pouco tempo neste mundo e
como nos preparamos para esse fim? Não são perguntas fáceis, mas é com elas que
o documentário Embaixo da Luz de Neon
tenta dialogar, produzindo um retrato sensível de alguém que vê o fim se
aproximar.
Vida poética
O documentário acompanha aquele
que pode ser o último ano da vida da poeta Andrea Gibson. Três anos antes ela
tinha recebido um diagnóstico de câncer de ovário e depois de vários
tratamentos a doença insistia em voltar. A essa altura ela já ultrapassou o
prognóstico de dois anos de vida e o câncer já se tornou metástase e se
espalhou para os ossos. A narrativa acompanha Andrea e a esposa, Megan Falley,
em seu cotidiano.
Seria fácil construir tudo como
uma narrativa sorumbática sobre a dor e sofrimento de uma paciente oncológica
nos altos e baixos dos estágios finais da doença, mas Andrea, Megan e, por
consequência, a narrativa não se permitem deixar o desespero tomar conta. Temos
os momentos dos resultados dolorosos de exames, dos efeitos colaterais severos
de medicação, do desalento no qual Andrea questiona a própria existência.
Em meio a toda essa dor, no
entanto, o casal encontra momentos de felicidade, seja durante um breve recuo
do câncer, seja em um jantar com amigas ou em momentos de cumplicidade nas
quais as duas deitam no chão da casa ao lado dos animais de estimação e trocam
confissões de mãos dadas.
Enquanto elas conversam, a
montagem transita entre várias imagens de arquivo do passado recente de Andrea
desde que recebeu o diagnóstico e também de momentos anteriores de sua vida. O
recurso soa como um esforço de nos deixar imersos no fluxo de pensamento da
personagem, ilustrando seus sentimentos, memórias e relação com o mundo,
principalmente nas cenas em que ela declama suas poesias. As falas de Andrea
lidam com a angústia do fim, mas celebram uma vida bem vivida, na qual ela
conseguiu viver fazendo o que ama, encontrou uma companheira e se depara com
seus possíveis momentos finais cercada de afeto. Uma ponderação de como a
finitude da nossa existência é o que torna belo cada um dos momentos de amor ou
felicidade que experimentamos, mesmo aqueles que parecem pequenos no grande
esquema das coisas.
Rockstar da poesia
O documentário também analisa a
trajetória artística de Andrea e como ela se tornou relevante no meio da
poesia, em especial por sua apresentações de poesia falada. Explorando como a
arte feita por ela se conecta com seus sentimentos, acompanhamos algumas
apresentações que revelam a intensidade com a qual ela declama suas palavras e
a força de suas apresentações, que movem o público de uma maneira que parece
mais próxima de uma estrela da música.
Para quem não conhece a obra de
Andrea, o filme oferece um bom ponto de entrada para sua obra e analisa seus
impactos da arte queer e no meio da
poesia como um todo. A cena da apresentação final de Andrea serve como uma
celebração de sua vida e arte, uma catarse poderosa a respeito de não perder a
força de vontade mesmo quando o fim se aproxima. Seria, inclusive, um bom ponto
para encerrar o filme, com a apoteose da artista conseguindo entregar uma
performance derradeira depois de meses com a saúde fragilizada. Sim, a cena
final de Andrea e Kate conversando enquanto olham o último exame e conversam
sobre os pássaros pousados na árvore serve como uma delicada reflexão final do
modo como as duas encaram o relacionamento delas e o inexorável fim que acaba
se colocar diante delas, mas penso que a performance da poesia funciona melhor
como clímax.
Embaixo da Luz de Neon equilibra muito bem o tema delicado que
trata, refletindo sobre vida, morte, amor e despedida com muita delicadeza e
lirismo.
Realizar um documentário implica
em estar aberto ao que a realidade vai apresentar a você, mesmo que você tenha
feito planos diferentes a respeito do que deseja filmar. Alabama: Presos do Sistema é um exemplo disso. Os diretores Andrew
Jarecki e Charlotte Kaufman foram à mais severa prisão do estado do Alabama nos
Estados Unidos para filmar um avivamento religioso feito por pastores que atuam
no sistema prisional. Chegando lá, no entanto, são abordados por vários presos
que denunciam maus tratos no local e os funcionários do presídio logo encerram
a filmagem e colocam a equipe para fora. Os diretores então passam a investigar
o que acontece no sistema prisional.
Cárcere rígido
O documentário então se
desenvolve através de conversas que os documentaristas tem com presos através de
celulares que os detentos conseguem trazer ilegalmente dentro da prisão e também
de vídeos feitos por esses detentos documentando os maus tratos. A ação à
margem da lei se dá porque as autoridades não permitem que os presos falem com
imprensa ou recebam pessoas, numa prática que não é comum no sistema prisional.
É um documentário de natureza expositiva e, talvez por isso, soe um pouco
cansativo, já que ele nos bombardeia o tempo todo com depoimentos ou dados que
estão sempre nos explicando as coisas, pegando o espectador pela mão sem dar
muito espaço para reflexão.
Um bilionário é morto em sua
cobertura em Mônaco. Ele estava trancado em seu quarto do pânico, mas morreu
asfixiado pela fumaça de um incêndio iniciado por invasores. Parece a premissa
de um mistério escrito por Agatha Christie, mas é o caso real envolvendo a
morte do banqueiro Edmond Safra. Produzido pela Netflix, o documentário Assassinato em Mônaco reconta essa
história e vai um pouco além, ponderando também sobre objetividade no
documentário e o que acontece quando um cineasta se envolve demais com os sujeitos
filmados.
Mistério do quarto fechado
O documentário narra como o
banqueiro Edmond Safra foi morto em sua cobertura em Mônaco e toda a
investigação que se seguiu, com direito a várias teorias conspiratórias e
diferentes suspeitos que iam desde a máfia russa, para quem Safra supostamente
lavava dinheiro, passando pela sua viúva, a brasileira Lily Safra cujo marido
anterior também morrera em condições suspeitas, chegando até o enfermeiro de
Edmond, Ted, que teria inventado a história de invasores no apartamento,
simulado ter sido esfaqueado por eles e iniciado um incêndio para alertar as
autoridades, que demoraram demais a vir.
Produzido pela Netflix, Influencer do Mal: A História de Jodi
Hildebrandt é mais um daqueles documentários true crime para streaming que
segue à risca a cartilha do formato e se sustenta mais pela história tenebrosa
que conta do que pelo modo como conta essa história.
Tratamento de choque
A história começa quando uma
criança é encontrada vagando pelas ruas de uma pequena cidade do estado de
Utah. A criança está visivelmente desnutrida e tem ferimentos nos braços e nas
pernas que denotam que ela estava amarrada. As autoridades descobrem que ela
escapou da casa da influencer Jodi Hildebrandt e que outras crianças estavam
sendo mantidas em cativeiro lá. A investigação acaba por revelar anos de abusos
cometidos por Jodi, maltratando crianças e afastando casais, sob a
justificativa de serem métodos psicoterapêuticos.
De início pensei que esse A Vizinha Perfeita fosse ser mais um
desses documentários true crime que
inundam a Netflix. Não deixa de ser um documentário sobre crime real, no
entanto, ao contrário da maioria dessas produções que usam a ocorrência de um
crime meramente como um veículo para chocar o espectador de maneira
sensacionalista, a produção dirigida Geeta Gandbhir usa esse crime para
refletir a respeito de vários problemas dos Estados Unidos.
Disputa doméstica
A narrativa acompanha como uma
briga entre vizinhos se transformou em tragédia. Durante quase dois anos em um
subúrbio na Flórida a idosa Susan Lorincz entrou em constantes brigas com os
vizinhos por conta das crianças que brincavam na região. Susan sempre reclamava
que as crianças estavam invadindo sua propriedade, mesmo quando elas estavam em
um terreno próximo que não fazia parte de sua casa. A idosa constantemente
atacava as crianças, o que a colocava em atrito com os pais, resultando em
inúmeras chamadas para a polícia de ambos os lados. A disputa escalou até o dia
em que Susan atirou e matou Ajike Owens, uma vizinha negra que foi bater à sua
porta para tirar satisfação depois que Susan teria tomado um tablete de seus
filhos.
Na década de 80 o ator de John
Candy era uma presença constante em comédias hollywoodianas, em especial por
sua parceria com o diretor John Hughes, com quem colaborou em nove filmes.
Candy faleceu em 94 por conta de um infarto, encerrando precocemente uma
carreira que ainda tinha muito potencial. Dirigido por Colin Hanks, o
documentário John Candy: Eu Me Amo é
um tributo e um estudo da vida de Candy.
Gigante gentil
O documentário narra a vida de
Candy desde a juventude, quando perde o pai aos cinco anos, um acontecimento
que marca sua vida. A partir daí, o filme acompanha a sua juventude conforme
ele ganha interesse por atuar, o crescimento de sua carreira e seus últimos
anos de vida. Estruturalmente é um documentário biográfico bem comum, se
valendo de imagens de arquivo e entrevistas para contar sua história. O que
sustenta o filme, a despeito dessas estruturas típicas, é o acesso que o
diretor Colin Hanks tem tanto a material de arquivo quando às pessoas próximas
de John Candy.
Produzido pela Netflix, o
documentário Número Desconhecido:
Catfishing na Escola é um daqueles casos que mostra como a realidade pode
ser mais insólita do que qualquer ficção. É uma produção que segue de maneira
muito acomodada a cartilha de documentários sobre crimes, mas mantem nosso
interesse pelos caminhos inesperados que sua história de cyberbullying toma. Aviso que o texto contem SPOILERS do filme.
Quando um estranho chama
O filme conta a história da
adolescente Lauryn. Quando ela tinha catorze anos começou a receber mensagens
hostis de um número anônimo que diziam para ela terminar com o namorado, Owen,
e com várias ofensas e xingamentos a ela. Owen também passou a receber
mensagens com ofensas e que faziam um duvidar da fidelidade do outro. O bullying virtual se estende por meses,
até que as mães dos dois entram em contato com a escola, que não consegue
descobrir quem é o responsável. A polícia também é contatada e seus esforços em
apontar um culpado também não dão resultado, com a investigação se alongando
por quase dois anos. Mesmo bloqueando o número ou trocando de celular os dois
adolescentes continuam a ser alvo das mensagens, que ficam cada vez mais
agressivas.
Eu lembro que o reality show The Biggest Loser (algo como
O Grande Perdedor em português) teve
uma versão aqui no Brasil chamada Quem
Perde Ganha. Não consegui assistir sequer um episódio inteiro. Apesar de se
colocar como um programa focado em saúde ao colocar pessoas obesas em uma
competição na qual quem perdesse mais peso ao longo de um determinado período
de tempo ganharia um prêmio em dinheiro, o que eu via nas telas era que essas
pessoas eram colocadas em situações vexatórias ou em exercícios pouco adequados
para elas. A minissérie documental Magreza
na TV: A Verdade de The Biggest Loser reforçou minhas impressões ao
explorar os bastidores da versão original do reality nos Estados Unidos, que durou dezessete temporadas entre
2004 e 2016.
Nem ganhar ou perder
Ao longo de três episódios a
série tenta mostrar como o reality se
vendia como um estímulo a uma vida saudável e à perda de peso em um país com
crescentes taxas de obesidade e sedentarismo. A série confronta essa proposta
com a realidade do programa, no qual pessoas obesas eram colocadas diante de
treinadores cujos programas de exercícios físicos eram pouco adequados para
pessoas obesas e sem condicionamento físico, além do fato de que esses
treinadores constantemente humilhavam e criticavam os participantes. Isso,
somado ao fato de que os participantes eram encorajados a comer o mínimo de
calorias possível enquanto mantinham uma rotina diária de várias horas de
exercício mostra como a perda rápida de peso que era exibida pelo programa era
pouco saudável.
Em Democracia em Vertigem (2019) a diretora Petra Costa narra a queda
de Dilma Roussef da presidência com grande vigor arquivístico, mas que se
acomodava em fazer de sua narrativa uma grande bricolagem de vários momentos
chave que foram narrados continuamente no noticiário político brasileiro sem
oferecer muito em termos de uma nova perspectiva ou de uma grande sacada
interpretativa que contribuísse para uma compreensão mais aprofundada dos fatos.
Neste Apocalipse nos Trópicos a
diretora se propõe a fazer um mergulho no ambiente da direita conservadora,
principalmente àquela ligada a igrejas neopentecostais, para melhor entender a ascensão
desse grupo na política brasileira.
Repetição histórica
Digo que o filme propõe esse mergulho
porque ele fica na proposta apenas. A ideia de um debate para tentar
compreender a ascensão da direita evangélica e sua adesão ao bolsonarismo é
logo abandonada para que a diretora basicamente repita os mesmos procedimentos
de Democracia em Vertigem, um
apanhado de imagens de arquivo e outras registradas pela diretora que recapitulam
momentos chave da vida política brasileira que tiveram bastante exposição midiática
nos últimos anos, tudo embalado por uma narração sussurrante, lamuriosa que fala
através de platitudes que explicitam o óbvio das imagens.