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terça-feira, 22 de setembro de 2026

Crítica – Cartum

 

Análise Crítica – Cartum

Review – Cartum
Filmar a realidade é estar aberto para imprevistos e mudar os planos conforme a realidade filmada se transforma e impacta as vidas dos sujeitos documentados. É isso que acontece em Cartum, cuja premissa inicial era acompanhar a vida de cinco pessoas do Sudão de diferentes idades e origens para acompanhar suas vidas e o que pensavam do país. Um golpe militar seguido de uma guerra civil muda os planos do documentário, já que tanto a equipe quanto os personagens são deslocados de seus territórios. Fora do Sudão, os realizadores e personagens comentam sobre como sobreviveram e o que ainda esperam do futuro.

Mediando memórias

O filme gira em torno de cinco personagens. Os garotos Lokain e Wilson, que vivem de coletar material reciclável, o servidor público Madji, a vendedora de chá Khadmalla e o ativista político Jawad. Usando chroma-key, o filme tenta fazer os sujeitos recriarem suas experiências antes e durante a guerra, recorrendo também a imagens captadas pelo documentário antes de guerra eclodir e que são comentadas pelos participantes.

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Crítica – Não Existe Almoço Grátis

 

Análise Crítica – Não Existe Almoço Grátis

Review – Não Existe Almoço Grátis
Acompanhando o funcionamento da cozinha solidária do MTST, o documentário Não Existe Almoço Grátis narra as histórias das mulheres responsáveis por ela e também pelo modo como o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto constrói um senso de cooperação e coletividade com seus membros.

Alimentação coletiva

O documentário foca em três mulheres responsáveis pela cozinha solidária do MTST na periferia de Brasília: Socorro, Jurailde e Bizza. Acompanhamos o cotidiano delas na cozinha enquanto se preparam para servir um número grande de pessoas no dia da posse de Lula em janeiro de 2023. Somado ao cotidiano na cozinha e da preparação para o evento, o documentário conta as histórias pessoais dessas mulheres e também das tensões em Brasília por conta de movimentos golpistas que não aceitavam o resultado das eleições de 2022.

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Crítica – Predators

 

Análise Crítica – Predators

Review  – Predators
No início dos anos 2000 o jornalista Chris Hansen ficou famoso com o programa To Catch a Predator. Nele, atores se passavam por adolescentes e entravam online para conversar com pessoas reais que se interessariam por ter contato sexual com menores de idade, marcavam encontros com essas pessoas que eram então surpreendidas por Hansen, que apresentava o histórico das conversas e trazia a polícia para prender os sujeitos. Ao mesmo tempo em que o programa chamou atenção para os perigos de deixar menores soltos na internet, o programa também é questionado por seus métodos e como busca mais sensacionalismo do que transformação. O documentário Predators, que chegou no Brasil via Paramount+, vai justamente questionar o legado do programa

Investigação espetacularizada

O filme abre com cenas de um dos programas de Hansen, com câmera dividida mostrando a atriz recebendo o investigado numa casa vazia, já seus pais estariam viajando, enquanto outras câmeras mostram Hansen se preparando em outro cômodo e a polícia esperando do lado de fora. Quando Hansen entra em cena, é visível que o interesse não é questionar ou ouvir o investigado, é desmoralizar o sujeito. O investigado tenta ir embora e assim que sai da casa é cercado por dezenas de policiais.

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Crítica – Jackass: O Último é o Melhor

 

Análise Crítica – Jackass: O Último é o Melhor

Review – Jackass: O Último é o Melhor
Há quase três décadas a trupe liderada por Johnny Knoxville testa os limites de seus corpos e do bom gosto na televisão e no cinema com Jackass. Agora próximo aos sessenta anos e sentindo o peso dos vários danos ao seu corpo, Knoxville apresenta esse Jackass: O Último é o Melhor como a derradeira obra do grupo, embora venha dizendo isso faz uns dois ou três filmes.

Tempo perdido

Embora venha há tempos dizendo que seu próximo trabalho será o último, aqui o tom é mais de desfecho que qualquer outro Jackass. O filme apresenta vários momentos de introspecção de Knoxville e sua trupe na qual ponderam sobre o percurso até aqui, as maluquices que fizeram e todo o dano que já sofreram. São momentos que oferecem respiros ao caos e escatologia típicos do grupo e permitem lançar outra luz sobre eles, na qual eles conversam sobre envelhecimento, os limites do corpo e até o próprio legado. Esses momentos poderiam ser o principal elemento do filme, mas não são aproveitados como deveriam, com a câmera rapidamente cortando quando alguém se emociona ou não dando muito espaço para algumas questões que são abordadas de maneira muito passageira, como o falecimento de Ryan Dunn ou os problemas que alguns membros do grupo, como Steve-O tiveram ao longo dos anos.

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Crítica – Confie em Mim: O Falso Profeta

 

Análise Crítica – Confie em Mim: O Falso Profeta

Review – Confie em Mim: O Falso Profeta
Se documentários true crime já viraram um gênero por si só, documentários true crime sobre seitas são um subgênero constante em catálogos de streaming. Produzida pela Netflix, a série Confie em Mim: O Falso Profeta é o mais novo exemplar desse formato.

Pela bandeira do paraíso

A narrativa é contada por Christine Marie, psicóloga especializada em seitas que se mudou para uma cidade na fronteira entre Utah com o Arizona depois da prisão de Warren Jeffs, líder de uma seita mórmon fundamentalista. Christine e o marido, o cineasta Tolga Katas, se mudam para a cidade para ajudar as famílias enredadas na seita, aproveitando o vácuo de poder deixado pela prisão de Jeffs. O que eles não contavam era a rápida ascensão de um novo líder e autoproclamado profeta em Samuel Bateman, que logo continuou as crenças fundamentalistas de Jeff de casamento plural, incluindo com meninas menores de idade, e uma série de outras condutas abusivas. Christine e o marido conseguem se aproximar de Samuel e usam a ideia de fazer um documentário sobre ele para registrar provas que enviam para as autoridades.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Crítica – Anatomia do Caos

 

Análise Crítica – Anatomia do Caos

Review – Anatomia do Caos
Os anos de pandemia foram tão traumáticos que às vezes sinto que não sou a mesma pessoa que eu era antes da contaminação global de COVID-19. Aqui no Brasil, especificamente, tivemos que lidar com um governo anti-ciência que se recusava a seguir as recomendações sanitárias recomendadas e, ao invés disso, insistia em manter tudo funcionando sob a justificativa de “não prejudicar a economia” e inventava tratamentos milagrosos que não funcionavam e que não conseguiram nem evitar mortes, nem preservar a economia. O resultado foram mais de setecentos mil mortos e um atraso no início da vacinação. Em 2021 a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da COVID-19, ocorrida no âmbito do senado federal serviu para lançar luz nos desmandos, omissões e incompetência do governo federal de então e é sobre isso que trata o documentário Anatomia do Caos.

Holocausto brasileiro

O documentário acompanha os trabalhos da CPI da COVID, construindo uma linha do tempo das investigações e contextualizando os eventos pandêmicos que aconteciam no Brasil enquanto a CPI se desenrolava. A produção recorre a imagens feitas durante a CPI, além de imagens de arquivo com reportagens e falas do então presidente Jair Bolsonaro. O documentário traz também imagens de bastidores dos senadores que lideravam a CPI, como Randolfe Rodrigues, Renan Calheiros e Omar Aziz, nos dando um inédito vislumbre nas articulações de como eles debatiam o que investigar, analisavam os fatos descobertos ou se preparavam para inquirir depoentes.

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Crítica – Instinto Materno

 

Análise Crítica – Instinto Materno

Review – Instinto Materno
Um policial no interior do Texas para uma mulher dirigindo em alta velocidade. Ela está muito agitada e diz que está indo para o hospital depois de realizar o próprio parto dentro do carro. O bebê ainda está envolto em fluido e com o cordão umbilical, mas os socorristas que chegam não encontram indícios de que houve um parto ou de que a mulher sequer estava grávida. No hospital ela se recusa a passar por exames físicos para comprovar a gravidez e a polícia começa a investigar quem é o bebê que estava com ela. Assim começa Instinto Materno, documentário true crime da Netflix, cuja história só fica mais sombria e bizarra conforme a trama avança.

Instinto selvagem

A trama é centrada em Taylor Parker, uma jovem mulher do interior do Texas e da rede de mentiras que ela construiu em torno de si. Ela começa a namorar Wade, um pequeno agricultor, e lhe diz que tem uma herança enorme para receber, mas que sua mãe a está impedindo de receber o que é devido. Convencendo ele e a família dele de que milhões estão à caminho, eles compram carrões e vários outros luxos, iniciando até o processo de adquirir uma fazenda de vinte milhões de dólares. Quando o dinheiro obviamente não chega, ela conta que está grávida para manter Wade interessado. O problema é que Taylor não está grávida e não pode engravidar, tendo feito uma histerectomia anos antes. Assim, ela passa a buscar meios de manter as mentiras de pé.

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Crítica – A Rainha do Xadrez

 

Análise Crítica – A Rainha do Xadrez

Review – A Rainha do Xadrez
Conheço pouco do universo do xadrez, cheguei a jogar um pouco no ensino médio, mas sou uma pessoa muito ansiosa para o ritmo do jogo. Conheço algumas das grandes figuras do xadrez do século XX como Bobby Fischer, Garry Kasparov, Boris Spassky (cuja disputa com Fischer foi retratada no filme O Dono do Jogo) ou Anatoly Karpov, então costumo me interessar por histórias sobre o xadrez competitivo. O que me atraiu para este A Rainha do Xadrez foi o resgate da história de uma figura feminina que venceu os maiores jogadores e ainda assim não é tão conhecida fora do meio.

Rainha em jogo

O documentário acompanha a trajetória da enxadrista húngara Judit Polgar, a única mulher a entrar para o top 10 dos rankings de jogadores de xadrez e uma das poucas pessoas a derrotar o grão mestre Garry Kasparov. A narrativa acompanha Judit desde a infância, explicando como o pai dela decidiu fazer um experimento de como criar filhos que fossem excepcionais em algo e desde de pequenas criou as três filhas para serem jogadoras de xadrez. A partir daí vemos a ascensão de Judit, ganhando competições femininas internacionais, quebrando o recorde de Bobby Fischer ao se tornar a pessoa mais jovem a chegar ao ranking de grão mestre no xadrez e passar a competir com homens.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Crítica – As Travessias de Letieres Leite

 

Análise Crítica – As Travessias de Letieres Leite

Review – As Travessias de Letieres Leite
Músico de trajetória longeva, com experiência em educação e fundador da Orquestra Rumpilezz, Letieres Leite não é influente apenas na música baiana, tendo trabalhado com artistas de diferentes lugares do Brasil e do mundo. O documentário As Travessias de Letieres Leite tenta dar conta dos caminhos formativos que contribuíram para sua trajetória singular.

Caminho ancestral

O documentário parte de uma longa e inédita entrevista com o Letieres Leite, falecido em 2021, para mostrar as várias influências na produção musical e ensino do maestro, culminando em seus projetos com a orquestra Rumpilezz. Estruturalmente é bem típico de documentários sobre artistas, com entrevistas e imagens de arquivo articuladas pela montagem, mas seu grande mérito é conseguir dar conta da trajetória do biografado de maneira que saímos entendendo seu grande impacto para a música e também como diferentes vivências, do trabalho com artes plásticas às suas experiências com religiões afro brasileiras, orientaram seu trabalho musical.

terça-feira, 31 de março de 2026

Crítica – Feiraguay

 

Análise Crítica – Feiraguay

Review – Feiraguay
Antes de falar qualquer coisa sobre Feiraguay preciso ser transparente e dizer que o diretor, Francisco Gabriel Rêgo, foi meu colega de doutorado e é um amigo próximo, então o que tenho a dizer sobre o filme não tem como ser um olhar plenamente distante ou imparcial sobre o documentário.

Feira do povo

Como o título diz, o documentário é sobre o Feiraguay, área de comércio popular na cidade de Feira de Santana, interior da Bahia. A narrativa conta a história de como o Feiraguay se tornou o marco da cidade que é hoje ao mesmo tempo em que pondera sobre o papel das feiras e áreas de comércio popular em áreas urbanas e os vários tensionamentos que emergem dentro de um espaço tão diverso.

segunda-feira, 30 de março de 2026

Crítica - Para Vigo Me Voy!

 

Análise Crítica - Para Vigo Me Voy!

Review - Para Vigo Me Voy!
Falecido em 2025, o cineasta Alagoano Cacá Diegues foi um dos integrantes do Cinema Novo capitaneado por Glauber Rocha e permaneceu ativo até seus últimos anos. Dirigido por Lírio Ferreira (de Baile Perfumado) e Karen Harley (de Lixo Extraordinário), o documentário Para Vigo Me Voy! examina de maneira afetuosa a trajetória do realizador.

País do carnaval

O filme reconta a trajetória de Diegues, explicando como ele começou a produzir filmes e as produções que inspiraram o movimento do Cinema Novo, como os filmes de Nelson Pereira dos Santos. A produção transita entre imagens do cotidiano de Diegues, feitas nos seus últimos, incluindo até bastidores da continuação de Deus é Brasileiro (2003), articulando isso com imagens de arquivo do diretor em entrevistas e outras situações e com cenas de seus filmes.

quarta-feira, 4 de março de 2026

Crítica – Embaixo da Luz de Neon

 

Análise Crítica – Embaixo da Luz de Neon

Como lidar com a perspectiva de morte iminente? O que fazer quando sabemos que temos pouco tempo neste mundo e como nos preparamos para esse fim? Não são perguntas fáceis, mas é com elas que o documentário Embaixo da Luz de Neon tenta dialogar, produzindo um retrato sensível de alguém que vê o fim se aproximar.

Vida poética 

O documentário acompanha aquele que pode ser o último ano da vida da poeta Andrea Gibson. Três anos antes ela tinha recebido um diagnóstico de câncer de ovário e depois de vários tratamentos a doença insistia em voltar. A essa altura ela já ultrapassou o prognóstico de dois anos de vida e o câncer já se tornou metástase e se espalhou para os ossos. A narrativa acompanha Andrea e a esposa, Megan Falley, em seu cotidiano.

Seria fácil construir tudo como uma narrativa sorumbática sobre a dor e sofrimento de uma paciente oncológica nos altos e baixos dos estágios finais da doença, mas Andrea, Megan e, por consequência, a narrativa não se permitem deixar o desespero tomar conta. Temos os momentos dos resultados dolorosos de exames, dos efeitos colaterais severos de medicação, do desalento no qual Andrea questiona a própria existência.

Em meio a toda essa dor, no entanto, o casal encontra momentos de felicidade, seja durante um breve recuo do câncer, seja em um jantar com amigas ou em momentos de cumplicidade nas quais as duas deitam no chão da casa ao lado dos animais de estimação e trocam confissões de mãos dadas.

Enquanto elas conversam, a montagem transita entre várias imagens de arquivo do passado recente de Andrea desde que recebeu o diagnóstico e também de momentos anteriores de sua vida. O recurso soa como um esforço de nos deixar imersos no fluxo de pensamento da personagem, ilustrando seus sentimentos, memórias e relação com o mundo, principalmente nas cenas em que ela declama suas poesias. As falas de Andrea lidam com a angústia do fim, mas celebram uma vida bem vivida, na qual ela conseguiu viver fazendo o que ama, encontrou uma companheira e se depara com seus possíveis momentos finais cercada de afeto. Uma ponderação de como a finitude da nossa existência é o que torna belo cada um dos momentos de amor ou felicidade que experimentamos, mesmo aqueles que parecem pequenos no grande esquema das coisas.

Rockstar da poesia

O documentário também analisa a trajetória artística de Andrea e como ela se tornou relevante no meio da poesia, em especial por sua apresentações de poesia falada. Explorando como a arte feita por ela se conecta com seus sentimentos, acompanhamos algumas apresentações que revelam a intensidade com a qual ela declama suas palavras e a força de suas apresentações, que movem o público de uma maneira que parece mais próxima de uma estrela da música.

Para quem não conhece a obra de Andrea, o filme oferece um bom ponto de entrada para sua obra e analisa seus impactos da arte queer e no meio da poesia como um todo. A cena da apresentação final de Andrea serve como uma celebração de sua vida e arte, uma catarse poderosa a respeito de não perder a força de vontade mesmo quando o fim se aproxima. Seria, inclusive, um bom ponto para encerrar o filme, com a apoteose da artista conseguindo entregar uma performance derradeira depois de meses com a saúde fragilizada. Sim, a cena final de Andrea e Kate conversando enquanto olham o último exame e conversam sobre os pássaros pousados na árvore serve como uma delicada reflexão final do modo como as duas encaram o relacionamento delas e o inexorável fim que acaba se colocar diante delas, mas penso que a performance da poesia funciona melhor como clímax.

Embaixo da Luz de Neon equilibra muito bem o tema delicado que trata, refletindo sobre vida, morte, amor e despedida com muita delicadeza e lirismo.

 

Nota: 9/10


Trailer


sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Crítica – Alabama: Presos do Sistema

 

Crítica – Alabama: Presos do Sistema

Review – Alabama: Presos do Sistema
Realizar um documentário implica em estar aberto ao que a realidade vai apresentar a você, mesmo que você tenha feito planos diferentes a respeito do que deseja filmar. Alabama: Presos do Sistema é um exemplo disso. Os diretores Andrew Jarecki e Charlotte Kaufman foram à mais severa prisão do estado do Alabama nos Estados Unidos para filmar um avivamento religioso feito por pastores que atuam no sistema prisional. Chegando lá, no entanto, são abordados por vários presos que denunciam maus tratos no local e os funcionários do presídio logo encerram a filmagem e colocam a equipe para fora. Os diretores então passam a investigar o que acontece no sistema prisional.

Cárcere rígido

O documentário então se desenvolve através de conversas que os documentaristas tem com presos através de celulares que os detentos conseguem trazer ilegalmente dentro da prisão e também de vídeos feitos por esses detentos documentando os maus tratos. A ação à margem da lei se dá porque as autoridades não permitem que os presos falem com imprensa ou recebam pessoas, numa prática que não é comum no sistema prisional. É um documentário de natureza expositiva e, talvez por isso, soe um pouco cansativo, já que ele nos bombardeia o tempo todo com depoimentos ou dados que estão sempre nos explicando as coisas, pegando o espectador pela mão sem dar muito espaço para reflexão.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Crítica – Assassinato em Mônaco

 

Análise Crítica – Assassinato em Mônaco

Review – Assassinato em Mônaco
Um bilionário é morto em sua cobertura em Mônaco. Ele estava trancado em seu quarto do pânico, mas morreu asfixiado pela fumaça de um incêndio iniciado por invasores. Parece a premissa de um mistério escrito por Agatha Christie, mas é o caso real envolvendo a morte do banqueiro Edmond Safra. Produzido pela Netflix, o documentário Assassinato em Mônaco reconta essa história e vai um pouco além, ponderando também sobre objetividade no documentário e o que acontece quando um cineasta se envolve demais com os sujeitos filmados.

Mistério do quarto fechado

O documentário narra como o banqueiro Edmond Safra foi morto em sua cobertura em Mônaco e toda a investigação que se seguiu, com direito a várias teorias conspiratórias e diferentes suspeitos que iam desde a máfia russa, para quem Safra supostamente lavava dinheiro, passando pela sua viúva, a brasileira Lily Safra cujo marido anterior também morrera em condições suspeitas, chegando até o enfermeiro de Edmond, Ted, que teria inventado a história de invasores no apartamento, simulado ter sido esfaqueado por eles e iniciado um incêndio para alertar as autoridades, que demoraram demais a vir.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Crítica – Influencer do Mal: A História de Jodi Hildebrandt

 

Análise Crítica – Influencer do Mal: A História de Jodi Hildebrandt

Review – Influencer do Mal: A História de Jodi Hildebrandt
Produzido pela Netflix, Influencer do Mal: A História de Jodi Hildebrandt é mais um daqueles documentários true crime para streaming que segue à risca a cartilha do formato e se sustenta mais pela história tenebrosa que conta do que pelo modo como conta essa história.

Tratamento de choque

A história começa quando uma criança é encontrada vagando pelas ruas de uma pequena cidade do estado de Utah. A criança está visivelmente desnutrida e tem ferimentos nos braços e nas pernas que denotam que ela estava amarrada. As autoridades descobrem que ela escapou da casa da influencer Jodi Hildebrandt e que outras crianças estavam sendo mantidas em cativeiro lá. A investigação acaba por revelar anos de abusos cometidos por Jodi, maltratando crianças e afastando casais, sob a justificativa de serem métodos psicoterapêuticos.

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Crítica – A Vizinha Perfeita

 

Análise Crítica – A Vizinha Perfeita

Review – A Vizinha Perfeita
De início pensei que esse A Vizinha Perfeita fosse ser mais um desses documentários true crime que inundam a Netflix. Não deixa de ser um documentário sobre crime real, no entanto, ao contrário da maioria dessas produções que usam a ocorrência de um crime meramente como um veículo para chocar o espectador de maneira sensacionalista, a produção dirigida Geeta Gandbhir usa esse crime para refletir a respeito de vários problemas dos Estados Unidos.

Disputa doméstica

A narrativa acompanha como uma briga entre vizinhos se transformou em tragédia. Durante quase dois anos em um subúrbio na Flórida a idosa Susan Lorincz entrou em constantes brigas com os vizinhos por conta das crianças que brincavam na região. Susan sempre reclamava que as crianças estavam invadindo sua propriedade, mesmo quando elas estavam em um terreno próximo que não fazia parte de sua casa. A idosa constantemente atacava as crianças, o que a colocava em atrito com os pais, resultando em inúmeras chamadas para a polícia de ambos os lados. A disputa escalou até o dia em que Susan atirou e matou Ajike Owens, uma vizinha negra que foi bater à sua porta para tirar satisfação depois que Susan teria tomado um tablete de seus filhos.

quinta-feira, 16 de outubro de 2025

Crítica – John Candy: Eu Me Amo

 

Análise Crítica – John Candy: Eu Me Amo

Review – John Candy: Eu Me Amo
Na década de 80 o ator de John Candy era uma presença constante em comédias hollywoodianas, em especial por sua parceria com o diretor John Hughes, com quem colaborou em nove filmes. Candy faleceu em 94 por conta de um infarto, encerrando precocemente uma carreira que ainda tinha muito potencial. Dirigido por Colin Hanks, o documentário John Candy: Eu Me Amo é um tributo e um estudo da vida de Candy.

Gigante gentil

O documentário narra a vida de Candy desde a juventude, quando perde o pai aos cinco anos, um acontecimento que marca sua vida. A partir daí, o filme acompanha a sua juventude conforme ele ganha interesse por atuar, o crescimento de sua carreira e seus últimos anos de vida. Estruturalmente é um documentário biográfico bem comum, se valendo de imagens de arquivo e entrevistas para contar sua história. O que sustenta o filme, a despeito dessas estruturas típicas, é o acesso que o diretor Colin Hanks tem tanto a material de arquivo quando às pessoas próximas de John Candy.

segunda-feira, 8 de setembro de 2025

Crítica – Número Desconhecido: Catfishing na Escola

Análise Crítica – Número Desconhecido: Catfishing na Escola


Resenha Crítica – Número Desconhecido: Catfishing na Escola
Produzido pela Netflix, o documentário Número Desconhecido: Catfishing na Escola é um daqueles casos que mostra como a realidade pode ser mais insólita do que qualquer ficção. É uma produção que segue de maneira muito acomodada a cartilha de documentários sobre crimes, mas mantem nosso interesse pelos caminhos inesperados que sua história de cyberbullying toma. Aviso que o texto contem SPOILERS do filme.

Quando um estranho chama

O filme conta a história da adolescente Lauryn. Quando ela tinha catorze anos começou a receber mensagens hostis de um número anônimo que diziam para ela terminar com o namorado, Owen, e com várias ofensas e xingamentos a ela. Owen também passou a receber mensagens com ofensas e que faziam um duvidar da fidelidade do outro. O bullying virtual se estende por meses, até que as mães dos dois entram em contato com a escola, que não consegue descobrir quem é o responsável. A polícia também é contatada e seus esforços em apontar um culpado também não dão resultado, com a investigação se alongando por quase dois anos. Mesmo bloqueando o número ou trocando de celular os dois adolescentes continuam a ser alvo das mensagens, que ficam cada vez mais agressivas.

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

Crítica – Magreza na TV: A Verdade de The Biggest Loser

 

Análise Crítica – Magreza na TV: A Verdade de The Biggest Loser

Review – Magreza na TV: A Verdade de The Biggest Loser
Eu lembro que o reality show The Biggest Loser (algo como O Grande Perdedor em português) teve uma versão aqui no Brasil chamada Quem Perde Ganha. Não consegui assistir sequer um episódio inteiro. Apesar de se colocar como um programa focado em saúde ao colocar pessoas obesas em uma competição na qual quem perdesse mais peso ao longo de um determinado período de tempo ganharia um prêmio em dinheiro, o que eu via nas telas era que essas pessoas eram colocadas em situações vexatórias ou em exercícios pouco adequados para elas. A minissérie documental Magreza na TV: A Verdade de The Biggest Loser reforçou minhas impressões ao explorar os bastidores da versão original do reality nos Estados Unidos, que durou dezessete temporadas entre 2004 e 2016.

Nem ganhar ou perder

Ao longo de três episódios a série tenta mostrar como o reality se vendia como um estímulo a uma vida saudável e à perda de peso em um país com crescentes taxas de obesidade e sedentarismo. A série confronta essa proposta com a realidade do programa, no qual pessoas obesas eram colocadas diante de treinadores cujos programas de exercícios físicos eram pouco adequados para pessoas obesas e sem condicionamento físico, além do fato de que esses treinadores constantemente humilhavam e criticavam os participantes. Isso, somado ao fato de que os participantes eram encorajados a comer o mínimo de calorias possível enquanto mantinham uma rotina diária de várias horas de exercício mostra como a perda rápida de peso que era exibida pelo programa era pouco saudável.

sexta-feira, 18 de julho de 2025

Crítica - Apocalipse nos Trópicos

 

Análise Crítica - Apocalipse nos Trópicos

Em Democracia em Vertigem (2019) a diretora Petra Costa narra a queda de Dilma Roussef da presidência com grande vigor arquivístico, mas que se acomodava em fazer de sua narrativa uma grande bricolagem de vários momentos chave que foram narrados continuamente no noticiário político brasileiro sem oferecer muito em termos de uma nova perspectiva ou de uma grande sacada interpretativa que contribuísse para uma compreensão mais aprofundada dos fatos. Neste Apocalipse nos Trópicos a diretora se propõe a fazer um mergulho no ambiente da direita conservadora, principalmente àquela ligada a igrejas neopentecostais, para melhor entender a ascensão desse grupo na política brasileira.

Repetição histórica

Digo que o filme propõe esse mergulho porque ele fica na proposta apenas. A ideia de um debate para tentar compreender a ascensão da direita evangélica e sua adesão ao bolsonarismo é logo abandonada para que a diretora basicamente repita os mesmos procedimentos de Democracia em Vertigem, um apanhado de imagens de arquivo e outras registradas pela diretora que recapitulam momentos chave da vida política brasileira que tiveram bastante exposição midiática nos últimos anos, tudo embalado por uma narração sussurrante, lamuriosa que fala através de platitudes que explicitam o óbvio das imagens.