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quarta-feira, 4 de março de 2026

Crítica – Embaixo da Luz de Neon

 

Análise Crítica – Embaixo da Luz de Neon

Como lidar com a perspectiva de morte iminente? O que fazer quando sabemos que temos pouco tempo neste mundo e como nos preparamos para esse fim? Não são perguntas fáceis, mas é com elas que o documentário Embaixo da Luz de Neon tenta dialogar, produzindo um retrato sensível de alguém que vê o fim se aproximar.

Vida poética 

O documentário acompanha aquele que pode ser o último ano da vida da poeta Andrea Gibson. Três anos antes ela tinha recebido um diagnóstico de câncer de ovário e depois de vários tratamentos a doença insistia em voltar. A essa altura ela já ultrapassou o prognóstico de dois anos de vida e o câncer já se tornou metástase e se espalhou para os ossos. A narrativa acompanha Andrea e a esposa, Megan Falley, em seu cotidiano.

Seria fácil construir tudo como uma narrativa sorumbática sobre a dor e sofrimento de uma paciente oncológica nos altos e baixos dos estágios finais da doença, mas Andrea, Megan e, por consequência, a narrativa não se permitem deixar o desespero tomar conta. Temos os momentos dos resultados dolorosos de exames, dos efeitos colaterais severos de medicação, do desalento no qual Andrea questiona a própria existência.

Em meio a toda essa dor, no entanto, o casal encontra momentos de felicidade, seja durante um breve recuo do câncer, seja em um jantar com amigas ou em momentos de cumplicidade nas quais as duas deitam no chão da casa ao lado dos animais de estimação e trocam confissões de mãos dadas.

Enquanto elas conversam, a montagem transita entre várias imagens de arquivo do passado recente de Andrea desde que recebeu o diagnóstico e também de momentos anteriores de sua vida. O recurso soa como um esforço de nos deixar imersos no fluxo de pensamento da personagem, ilustrando seus sentimentos, memórias e relação com o mundo, principalmente nas cenas em que ela declama suas poesias. As falas de Andrea lidam com a angústia do fim, mas celebram uma vida bem vivida, na qual ela conseguiu viver fazendo o que ama, encontrou uma companheira e se depara com seus possíveis momentos finais cercada de afeto. Uma ponderação de como a finitude da nossa existência é o que torna belo cada um dos momentos de amor ou felicidade que experimentamos, mesmo aqueles que parecem pequenos no grande esquema das coisas.

Rockstar da poesia

O documentário também analisa a trajetória artística de Andrea e como ela se tornou relevante no meio da poesia, em especial por sua apresentações de poesia falada. Explorando como a arte feita por ela se conecta com seus sentimentos, acompanhamos algumas apresentações que revelam a intensidade com a qual ela declama suas palavras e a força de suas apresentações, que movem o público de uma maneira que parece mais próxima de uma estrela da música.

Para quem não conhece a obra de Andrea, o filme oferece um bom ponto de entrada para sua obra e analisa seus impactos da arte queer e no meio da poesia como um todo. A cena da apresentação final de Andrea serve como uma celebração de sua vida e arte, uma catarse poderosa a respeito de não perder a força de vontade mesmo quando o fim se aproxima. Seria, inclusive, um bom ponto para encerrar o filme, com a apoteose da artista conseguindo entregar uma performance derradeira depois de meses com a saúde fragilizada. Sim, a cena final de Andrea e Kate conversando enquanto olham o último exame e conversam sobre os pássaros pousados na árvore serve como uma delicada reflexão final do modo como as duas encaram o relacionamento delas e o inexorável fim que acaba se colocar diante delas, mas penso que a performance da poesia funciona melhor como clímax.

Embaixo da Luz de Neon equilibra muito bem o tema delicado que trata, refletindo sobre vida, morte, amor e despedida com muita delicadeza e lirismo.

 

Nota: 9/10


Trailer


sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Crítica – Alabama: Presos do Sistema

 

Crítica – Alabama: Presos do Sistema

Review – Alabama: Presos do Sistema
Realizar um documentário implica em estar aberto ao que a realidade vai apresentar a você, mesmo que você tenha feito planos diferentes a respeito do que deseja filmar. Alabama: Presos do Sistema é um exemplo disso. Os diretores Andrew Jarecki e Charlotte Kaufman foram à mais severa prisão do estado do Alabama nos Estados Unidos para filmar um avivamento religioso feito por pastores que atuam no sistema prisional. Chegando lá, no entanto, são abordados por vários presos que denunciam maus tratos no local e os funcionários do presídio logo encerram a filmagem e colocam a equipe para fora. Os diretores então passam a investigar o que acontece no sistema prisional.

Cárcere rígido

O documentário então se desenvolve através de conversas que os documentaristas tem com presos através de celulares que os detentos conseguem trazer ilegalmente dentro da prisão e também de vídeos feitos por esses detentos documentando os maus tratos. A ação à margem da lei se dá porque as autoridades não permitem que os presos falem com imprensa ou recebam pessoas, numa prática que não é comum no sistema prisional. É um documentário de natureza expositiva e, talvez por isso, soe um pouco cansativo, já que ele nos bombardeia o tempo todo com depoimentos ou dados que estão sempre nos explicando as coisas, pegando o espectador pela mão sem dar muito espaço para reflexão.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Crítica – Assassinato em Mônaco

 

Análise Crítica – Assassinato em Mônaco

Review – Assassinato em Mônaco
Um bilionário é morto em sua cobertura em Mônaco. Ele estava trancado em seu quarto do pânico, mas morreu asfixiado pela fumaça de um incêndio iniciado por invasores. Parece a premissa de um mistério escrito por Agatha Christie, mas é o caso real envolvendo a morte do banqueiro Edmond Safra. Produzido pela Netflix, o documentário Assassinato em Mônaco reconta essa história e vai um pouco além, ponderando também sobre objetividade no documentário e o que acontece quando um cineasta se envolve demais com os sujeitos filmados.

Mistério do quarto fechado

O documentário narra como o banqueiro Edmond Safra foi morto em sua cobertura em Mônaco e toda a investigação que se seguiu, com direito a várias teorias conspiratórias e diferentes suspeitos que iam desde a máfia russa, para quem Safra supostamente lavava dinheiro, passando pela sua viúva, a brasileira Lily Safra cujo marido anterior também morrera em condições suspeitas, chegando até o enfermeiro de Edmond, Ted, que teria inventado a história de invasores no apartamento, simulado ter sido esfaqueado por eles e iniciado um incêndio para alertar as autoridades, que demoraram demais a vir.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Crítica – Influencer do Mal: A História de Jodi Hildebrandt

 

Análise Crítica – Influencer do Mal: A História de Jodi Hildebrandt

Review – Influencer do Mal: A História de Jodi Hildebrandt
Produzido pela Netflix, Influencer do Mal: A História de Jodi Hildebrandt é mais um daqueles documentários true crime para streaming que segue à risca a cartilha do formato e se sustenta mais pela história tenebrosa que conta do que pelo modo como conta essa história.

Tratamento de choque

A história começa quando uma criança é encontrada vagando pelas ruas de uma pequena cidade do estado de Utah. A criança está visivelmente desnutrida e tem ferimentos nos braços e nas pernas que denotam que ela estava amarrada. As autoridades descobrem que ela escapou da casa da influencer Jodi Hildebrandt e que outras crianças estavam sendo mantidas em cativeiro lá. A investigação acaba por revelar anos de abusos cometidos por Jodi, maltratando crianças e afastando casais, sob a justificativa de serem métodos psicoterapêuticos.

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Crítica – A Vizinha Perfeita

 

Análise Crítica – A Vizinha Perfeita

Review – A Vizinha Perfeita
De início pensei que esse A Vizinha Perfeita fosse ser mais um desses documentários true crime que inundam a Netflix. Não deixa de ser um documentário sobre crime real, no entanto, ao contrário da maioria dessas produções que usam a ocorrência de um crime meramente como um veículo para chocar o espectador de maneira sensacionalista, a produção dirigida Geeta Gandbhir usa esse crime para refletir a respeito de vários problemas dos Estados Unidos.

Disputa doméstica

A narrativa acompanha como uma briga entre vizinhos se transformou em tragédia. Durante quase dois anos em um subúrbio na Flórida a idosa Susan Lorincz entrou em constantes brigas com os vizinhos por conta das crianças que brincavam na região. Susan sempre reclamava que as crianças estavam invadindo sua propriedade, mesmo quando elas estavam em um terreno próximo que não fazia parte de sua casa. A idosa constantemente atacava as crianças, o que a colocava em atrito com os pais, resultando em inúmeras chamadas para a polícia de ambos os lados. A disputa escalou até o dia em que Susan atirou e matou Ajike Owens, uma vizinha negra que foi bater à sua porta para tirar satisfação depois que Susan teria tomado um tablete de seus filhos.

quinta-feira, 16 de outubro de 2025

Crítica – John Candy: Eu Me Amo

 

Análise Crítica – John Candy: Eu Me Amo

Review – John Candy: Eu Me Amo
Na década de 80 o ator de John Candy era uma presença constante em comédias hollywoodianas, em especial por sua parceria com o diretor John Hughes, com quem colaborou em nove filmes. Candy faleceu em 94 por conta de um infarto, encerrando precocemente uma carreira que ainda tinha muito potencial. Dirigido por Colin Hanks, o documentário John Candy: Eu Me Amo é um tributo e um estudo da vida de Candy.

Gigante gentil

O documentário narra a vida de Candy desde a juventude, quando perde o pai aos cinco anos, um acontecimento que marca sua vida. A partir daí, o filme acompanha a sua juventude conforme ele ganha interesse por atuar, o crescimento de sua carreira e seus últimos anos de vida. Estruturalmente é um documentário biográfico bem comum, se valendo de imagens de arquivo e entrevistas para contar sua história. O que sustenta o filme, a despeito dessas estruturas típicas, é o acesso que o diretor Colin Hanks tem tanto a material de arquivo quando às pessoas próximas de John Candy.

segunda-feira, 8 de setembro de 2025

Crítica – Número Desconhecido: Catfishing na Escola

Análise Crítica – Número Desconhecido: Catfishing na Escola


Resenha Crítica – Número Desconhecido: Catfishing na Escola
Produzido pela Netflix, o documentário Número Desconhecido: Catfishing na Escola é um daqueles casos que mostra como a realidade pode ser mais insólita do que qualquer ficção. É uma produção que segue de maneira muito acomodada a cartilha de documentários sobre crimes, mas mantem nosso interesse pelos caminhos inesperados que sua história de cyberbullying toma. Aviso que o texto contem SPOILERS do filme.

Quando um estranho chama

O filme conta a história da adolescente Lauryn. Quando ela tinha catorze anos começou a receber mensagens hostis de um número anônimo que diziam para ela terminar com o namorado, Owen, e com várias ofensas e xingamentos a ela. Owen também passou a receber mensagens com ofensas e que faziam um duvidar da fidelidade do outro. O bullying virtual se estende por meses, até que as mães dos dois entram em contato com a escola, que não consegue descobrir quem é o responsável. A polícia também é contatada e seus esforços em apontar um culpado também não dão resultado, com a investigação se alongando por quase dois anos. Mesmo bloqueando o número ou trocando de celular os dois adolescentes continuam a ser alvo das mensagens, que ficam cada vez mais agressivas.

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

Crítica – Magreza na TV: A Verdade de The Biggest Loser

 

Análise Crítica – Magreza na TV: A Verdade de The Biggest Loser

Review – Magreza na TV: A Verdade de The Biggest Loser
Eu lembro que o reality show The Biggest Loser (algo como O Grande Perdedor em português) teve uma versão aqui no Brasil chamada Quem Perde Ganha. Não consegui assistir sequer um episódio inteiro. Apesar de se colocar como um programa focado em saúde ao colocar pessoas obesas em uma competição na qual quem perdesse mais peso ao longo de um determinado período de tempo ganharia um prêmio em dinheiro, o que eu via nas telas era que essas pessoas eram colocadas em situações vexatórias ou em exercícios pouco adequados para elas. A minissérie documental Magreza na TV: A Verdade de The Biggest Loser reforçou minhas impressões ao explorar os bastidores da versão original do reality nos Estados Unidos, que durou dezessete temporadas entre 2004 e 2016.

Nem ganhar ou perder

Ao longo de três episódios a série tenta mostrar como o reality se vendia como um estímulo a uma vida saudável e à perda de peso em um país com crescentes taxas de obesidade e sedentarismo. A série confronta essa proposta com a realidade do programa, no qual pessoas obesas eram colocadas diante de treinadores cujos programas de exercícios físicos eram pouco adequados para pessoas obesas e sem condicionamento físico, além do fato de que esses treinadores constantemente humilhavam e criticavam os participantes. Isso, somado ao fato de que os participantes eram encorajados a comer o mínimo de calorias possível enquanto mantinham uma rotina diária de várias horas de exercício mostra como a perda rápida de peso que era exibida pelo programa era pouco saudável.

sexta-feira, 18 de julho de 2025

Crítica - Apocalipse nos Trópicos

 

Análise Crítica - Apocalipse nos Trópicos

Em Democracia em Vertigem (2019) a diretora Petra Costa narra a queda de Dilma Roussef da presidência com grande vigor arquivístico, mas que se acomodava em fazer de sua narrativa uma grande bricolagem de vários momentos chave que foram narrados continuamente no noticiário político brasileiro sem oferecer muito em termos de uma nova perspectiva ou de uma grande sacada interpretativa que contribuísse para uma compreensão mais aprofundada dos fatos. Neste Apocalipse nos Trópicos a diretora se propõe a fazer um mergulho no ambiente da direita conservadora, principalmente àquela ligada a igrejas neopentecostais, para melhor entender a ascensão desse grupo na política brasileira.

Repetição histórica

Digo que o filme propõe esse mergulho porque ele fica na proposta apenas. A ideia de um debate para tentar compreender a ascensão da direita evangélica e sua adesão ao bolsonarismo é logo abandonada para que a diretora basicamente repita os mesmos procedimentos de Democracia em Vertigem, um apanhado de imagens de arquivo e outras registradas pela diretora que recapitulam momentos chave da vida política brasileira que tiveram bastante exposição midiática nos últimos anos, tudo embalado por uma narração sussurrante, lamuriosa que fala através de platitudes que explicitam o óbvio das imagens.

sexta-feira, 11 de julho de 2025

Drops – Desastre Total: Cruzeiro do Cocô

 

Crítica – Desastre Total: Cruzeiro do Cocô

Review – Desastre Total: Cruzeiro do Cocô
Parte do selo Desastre Total da Netflix, que compreende documentários sobre catástrofes ou eventos controversos, Cruzeiro do Cocô narra um desastre marítimo ocorrido em 2013 que mobilizou a imprensa dos Estados Unidos.

Viagem de merda

O documentário conta a história do navio de cruzeiro Carnival Triumph que em 2013 sofreu um incêndio na casa de máquinas que destruiu os geradores de energia da embarcação e a deixou sem energia. Como até mesmo a descarga das privadas dependiam de geradores para funcionar, os passageiros sequer conseguiam usar o banheiro direito. Soma-se isso a uma demora da empresa que gerenciava o cruzeiro em mandar um reboque para trazer a embarcação de volta a um porto próximo, temos um grande desastre que colocou a vida de todos em risco.

segunda-feira, 7 de julho de 2025

Crítica - Yõg Ãtak: Meu Pai, Kaiowá

 

Análise Crítica - Yõg Ãtak: Meu Pai, Kaiowá

Review - Yõg Ãtak: Meu Pai, Kaiowá
Ainda há uma espécie de senso comum equivocado de que a repressão da ditadura militar brasileira foi algo focado nos grandes centros urbanos e que quem estava à margem disso foi pouco afetado. O sucesso de Ainda Estou Aqui no ano passado e certas reações a ele mostrou como esse senso comum ainda está presente, falhando em entender como a ditadura também afetou populações fora desses centros urbanos, como as populações indígenas. O documentário Yõg Ãtak: Meu Pai, Kaiowá, conta exatamente uma dessas histórias de como comunidades indígenas foram impactadas nesse período.

Diáspora indígena

O filme parte da busca de Sueli Maxakali (uma das diretoras do filme) e sua irmã Maiza Maxakali, pelo pai delas, Luiz Kaiowá, de quem foram separadas quando eram pequenas ainda no período da ditadura militar. A narrativa conta como Luiz foi removido à força de seu território natal no Mato Grosso do Sul pelo então governo, sendo transportado por vários estados até chegar ao território dos Tikmũ’ũn (também chamados de Maxakali) em Minas Gerais, onde conheceu a mãe de Sueli e Maiza. Depois Luiz sofre um novo deslocamento forçado por parte do governo e perde o contato com a família que constituiu em Minas Gerais.

terça-feira, 1 de julho de 2025

Crítica – O Presidente Surdo

 

Análise Crítica – O Presidente Surdo

Review – O Presidente Surdo
O documentário é capaz de resgatar eventos que não ficaram na memória coletiva, nos abrir a realidades que não conhecíamos. O Presidente Surdo faz exatamente isso ao contar a história de uma mobilização estudantil da universidade Gallaudet na década de oitenta.

O som do silêncio

O filme acompanha eventos ocorridos em 1988 na Universidade Gallaudet, a primeira universidade dedicada à educação de pessoas surdas criada nos Estados Unidos ainda no século XIX. Os estudantes estavam mobilizados pela eleição de um presidente que fosse surdo, mas quando o conselho gestor da universidade aponta uma presidente que não é surda e se mostra insensível às demandas e questões do corpo discente, os estudantes se organizam para exigir mudanças.

sexta-feira, 27 de junho de 2025

Rapsódias Revisitadas – Grey Gardens

 

Análise Rapsódias Revisitadas – Grey Gardens

Review - Grey Gardens
Dirigido pelos irmãos Maysles, nomes chave do movimento do cinema direto dos Estados Unidos, Grey Gardens foi lançado em 1975 e até hoje permanece como um documentário envolvente tanto pela abordagem observacional dos Maysles, que pregam por interferir o mínimo possível nas cenas, e as personalidades pitorescas das duas protagonistas, que parecem apreciar serem observadas pelas câmeras do documentário. O resultado é uma enorme sinergia entre quem filma e quem é filmado, tornando difícil não se deixar absorver pelo que está em tela.

Elite decadente

A trama acompanha a idosa Edith e sua filha de meia idade Edie. Elas são tia e prima de Jackie Kennedy Onassis, ex-primeira dama do país. Em 1973 a dupla tomou as manchetes dos jornais depois que uma série de denúncias e vistorias de órgãos municipais decretou que a mansão dilapidada em que viviam, chamada de Grey Gardens, estava condenada e elas seriam removidas do local para que o imóvel fosse demolido. Jackie e irmã ajudam as parentes da minimamente reformarem a casa e elas são autorizadas a voltarem a morar no local e esse é o ponto de partida do filme, acompanhando o cotidiano de mãe e filha nesse imóvel acabado.

sexta-feira, 11 de abril de 2025

Crítica – Brasiliana: O Musical Negro Que Apresentou o Brasil ao Mundo

 

Análise Crítica – Brasiliana: O Musical Negro Que Apresentou o Brasil ao Mundo

Review – Brasiliana: O Musical Negro Que Apresentou o Brasil ao Mundo
O diretor Joel Zito Araújo já tinha feito resgates importantes da história e cultura afro nas artes em produções como A Negação do Brasil (2000), no qual falava sobre a representatividade negra em telenovelas, e Meu Amigo Fela (2019), sobre o músico Fela Kuti. Neste Brasiliana: O Musical Negro Que Apresentou o Brasil ao Mundo ele faz outro importante resgate ao narrar a história de uma companhia musical negra que foi criada na década de 1950 e permaneceu ativa por mais de 25 anos.

Visibilidade cultural

A Companhia Brasiliana foi um grupo de música, dança e teatro afro-brasileiros com o elenco todo formado por artistas negros que se apresentou em mais de noventa países ao longo de sua trajetória apresentando um espetáculo baseado na história, cultura e musicalidade afro-brasileiras. O documentário faz um resgate histórico importante ao mostrar já que na metade do século XX o Brasil tinha um grupo artístico focado na cultura negra e que esse grupo teve uma imensa visibilidade internacional, circulando o mundo e participando de grandes eventos, desde filmes da Sophia Loren a aberturas de Copa do Mundo.

sexta-feira, 4 de abril de 2025

Crítica – 3 Obás de Xangô

 

Análise Crítica – 3 Obás de Xangô

Review – 3 Obás de Xangô
Dirigido por Sérgio Machado (responsável por filmes como Cidade Baixa e A Luta do Século), o documentário 3 Obás de Xangô analisa a amizade entre três artistas baianos, a influência deles na cultura do estado e como eles ajudaram a promover culturas afro brasileiras e a enfrentar o preconceito contra as religiões de matriz africana.

A invenção da Bahia

A produção narra a amizade entre o escritor Jorge Amado, o músico Dorival Caymmi e o artista plástico Carybé a partir da conexão que eles tinham com o terreiro de Mãe Stella de Oxóssi no qual ocupavam a posição de Obá de Xangô, um título honorífico que reconhecia o papel deles na visibilidade que davam à cultura afro e o combate ao preconceito. Estruturalmente é um documentário bem convencional, recorrendo a imagens de arquivo que mostram as interações entre os três personagens, produções inspiradas nas obras deles (como as adaptações cinematográficas de Jorge Amado), além de entrevistas com personalidades contemporâneas, como o ator Lázaro Ramos ou o escritor Itamar Vieira Junior, que falam da influência dos três artistas.

quinta-feira, 3 de abril de 2025

Crítica – A Queda do Céu

 

Análise Crítica – A Queda do Céu

Review – A Queda do Céu
Dirigido por Eryk Rocha e Gabriela Carneiro da Cunha, o documentário A Queda do Céu se baseia no livro homônimo de Davi Kopenawa e Bruce Albert. O livro trazia reflexões do xamã yanomami Davi Kopenawa sobre as noções brancas de progresso e desenvolvimento, narrando também o modo como os xamãs se relacionam com o mundo espiritual para proteger a natureza e evitar a “queda do céu” que seria causada pela desarmonia promovida pelos brancos.

Cosmovisão nativa

É um filme focado principalmente em nos fazer entender a cosmovisão do povo yanomami. Ou seja, como eles veem o mundo, o funcionamento do universo e o que eles pensam das práticas das pessoas de fora, supostamente desenvolvidas. A produção inicia com uma longa cena de um grupo de yanomamis se deslocando por uma trilha em meio a um descampado e dá o tom para um filme que é, em essência, sobre as movimentações dessa população. Como eles se movimentam pela região e vivem com a floresta, como tentam se proteger de ataques externos e como eles se movimentam internamente em seus rituais xamânicos na busca por revelações sobre o devir e por proteção nos conflitos com os brancos.

quarta-feira, 19 de março de 2025

Crítica – Sem Chão

 

Análise Crítica – Sem Chão

Review – Sem Chão
Feito por pessoas tanto da Palestina quanto de Israel, Sem Chão se debruça especificamente sobre a situação da região de Masafer Yatta na Cisjordânia cujas vilas são constantemente destruídas por tropas israelenses sob a justificativa de que a área é um local de treino para as forças armadas israelenses.

Terra de ninguém

É um documentário feito sobre e na urgência da situação, com imagens sendo captadas no momento que as tropas chegam para remover as pessoas, derrubar as casas com resultados muitas vezes trágicos de moradores desarmados que protestam a situação sendo baleados pelas tropas. As imagens, muitas vezes tremidas, muitas vezes distantes ou não devidamente enquadradas são um reflexo dessa urgência e comunicam sobre as condições sob as quais o filme foi realizado.

terça-feira, 18 de março de 2025

Crítica – Milton Bituca Nascimento

Análise Crítica – Milton Bituca Nascimento

Review – Milton Bituca Nascimento
Fui assistir Milton Bituca Nascimento achando que seria um documentário sobre os bastidores de sua última turnê. Não deixa de ser sobre isso, mas a produção aproveita o gancho de ser uma turnê de despedida do músico para refletir sobre seu legado artístico, sobre o que torna Milton um artista tão diferenciado e as inspirações de sua arte. O resultado é um mergulho mais abrangente e compreensivo da arte de seu objeto do que se ele se limitasse a apenas acompanhar bastidores da turnê, ainda que seja um documentário bem típico em sua estrutura.

Caçador de mim

Narrado por Fernanda Montenegro, o filme analisa a trajetória do cantor e seu impacto, mostrando como ela repercute tanto no Brasil quanto no resto do mundo. Há uma qualidade poética no texto da narração que tenta dar conta da força sensorial e emotiva da força de Milton, mas o texto é também bastante didático em explicar os aspectos mais técnicos e musicológicos do que torna sua música tão diferenciada. Nesse sentido, a narração de Fernanda Montenegro consegue dar a medida da capacidade expressiva da arte de Milton, de sua complexidade e de fazer a audiência entender como é feita essa música.

quarta-feira, 12 de março de 2025

Crítica – Amizade

 

Análise Crítica – Amizade

Review – Amizade
Dirigido por Cao Guimarães, o documentário Amizade funciona como um filme-ensaio mesclando imagens de arquivo e narrações para construir um senso de que acompanhamos o fluxo de consciência do realizador enquanto ele reflete sobre amizade e conexões afetivas.

Alma que mora em dois corpos

O ponto de partida do filme é a mudança do diretor para o Uruguai e durante a viagem ele capta imagens de um dos amigos que o ajuda na mudança. Em seu novo lar ele examina imagens antigas, registradas em diferentes mídias, para refletir sobre o papel da amizade em sua vida. A narração do diretor ajuda a dar unidade a esses fragmentos de memória plasmados em imagem nos mostrando essas cenas de interação entre ele e as pessoas próximas para refletir como essas conexões e afetos são importantes em sua vida. Sem a narração essas imagens bastante pessoais e descontextualizadas, que provavelmente não significariam nada para alguém que não está inserido nesse círculo de amizade.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

Crítica – Sugarcane: Sombras de um Colégio Interno

 

Análise Crítica – Sugarcane: Sombras de um Colégio Interno

Review – Sugarcane: Sombras de um Colégio Interno
Os Estados Unidos tem uma imensa dívida histórica com a população indígena por conta do genocídio dos povos, da tomada de terras, das políticas excludentes e tantas outras ações que visavam o extermínio ou aculturação desses povos. O documentário Sugarcane: Sombras de um Colégio Interno mostra mais uma faceta sombria desse genocídio étnico perpetrado em territórios dos EUA e do Canadá, dessa vez com a cumplicidade da Igreja Católica.

Missão de extermínio

O documentário é focado no caso de uma Escola Missionária localizada na reserva indígena de Sugarcane. A escola era apenas uma dentre muitas escolas missionárias pensadas para “resolver” a “questão indígena”. Ao longo de décadas vários bebês e crianças foram mortos dentro da escola e dezenas de alunos internos foram abusados física e sexualmente pelos padres que ensinavam no local.