terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Crítica – O Sobrevivente

 

Análise Crítica – O Sobrevivente

Review – O Sobrevivente
Lançado em 1987, O Sobrevivente adaptava o romance O Concorrente de Stephen King em uma típica farofa oitentista de ação protagonizada por Arnold Schwarzenegger, cheio de canastrice e frases de efeito. Agora o diretor Edgar Wright (de Em Ritmo de Fuga e Noite Passada em Soho) tenta fazer uma adaptação mais próxima à distopia criada por King e a crítica social que o autor tentava fazer.

Jogos vorazes

A narrativa se passa em um futuro no qual há um abismo social ainda maior no qual os ricos vivem em bairros fechados, cheios de segurança, enquanto os mais pobres são abandonados à própria sorte em periferias sujas. Ben (Glen Powell, de Twisters e Todos Menos Você) acaba de perder o emprego e a filha está doente. Sem ter como pagar o tratamento ele tenta se candidatar a uma das várias competições televisivas que permitem aos mais pobres ganhar algum dinheiro às custas de humilhação ou perigo. A raiva dele contra o sistema o faz ser selecionado para a principal e mais mortal das competições. Chamada de “o sobrevivente” é um reality show no qual os participantes precisam sobreviver por trinta dias sendo caçados pelas autoridades e vigiados pela população para ganhar um prêmio milionário.

Assim como aconteceu esse ano com A Longa Marcha, outra adaptação de King que fala sobre uma distopia guiada por uma competição mortal, o filme sofre por sua premissa já ter sido explorada à exaustão pela literatura e por Hollywood nas últimas décadas, não conseguindo escapar de soar derivativo. A condução de Wright, por mais que tente ir por um caminho mais sério, também tenta incorporar um pouco do camp da versão oitentista em sua violência exagerada e frases de efeito.

Parte do problema do filme é justamente não conseguir fazer bem nenhuma dessas duas coisas. Falta exagero e canastrice para funcionar como uma farofa oitentista e as tentativas do filme em fazer qualquer comentário sobre conflitos de classe são bem simplórios, como fica evidente na cena em que Ben invade o carro de uma dondoca. A trama tenta construir a impressão de uma sociedade em revolta silenciosa, a beira de uma rebelião violenta contra os ricos, mas as cenas antes de Ben entrar na competição não convencem disso. Um exemplo é o momento em que ele espera na fila da emissora e tenta ajudar um idoso que está passando mal. A polícia vem e diz para ele voltar para a fila e o agride quando ele recusa. Enquanto o protagonista toma uma surra, os demais pobres na fila apenas assistem em apatia. Se fosse uma população em busca de um estopim qualquer para se rebelar, os populares reagiriam com mais agressividade em relação à injustiça contra Ben.

Mídia trapaceira

O roteiro se sai um pouco melhor em mostrar como a comunicação de massa pode ser usada para distrair pessoas de seu estado de precariedade. Com a televisão criando espantalhos e inimigos ficcionais para a população direcionar sua raiva ao invés de perceber os mecanismos de opressão engendrados pelos mais ricos, mantendo o povo brigando entre si e não com seus reais inimigos. A trama também mostra como é possível fabricar uma impressão mentirosa da realidade (principalmente hoje com IA e ferramentas de edição de áudio e vídeo) para manipular as pessoas.

Os diferentes programas de competição mostram como a mídia de massa usa esses prêmios pontuais para aplacar a revolta da população e ainda assim reforçar o ideal de que essas pessoas estão ganhando porque “fizeram por merecer” e quem é pobre está nessa situação simplesmente porque não se esforça. É um tipo de assistencialismo sádico, no qual os participantes são humilhados e submetidos à violência para o entretenimento em massa. Não muito diferente de certos programas dominicais na televisão brasileira. O ator Colman Domingo devora o cenário como o apresentador do reality disputado pelo protagonista, dando uma energia caótica e uma boa medida de cinismo ao animador de auditório.

Glen Powell faz do protagonista um homem comum cansado das múltiplas injustiças ao seu redor, mas é prejudicado por um texto que nunca constrói bem as questões de classe e justiça social que tenta apresentar. Josh Brolin fica preso a um vilão genérico enquanto Lee Pace é desperdiçado como o líder dos caçadores no encalço de Ben, passando boa parte do filme com o rosto coberto e sem muito a dizer.

Assim, apesar de alguns elementos interessantes O Sobrevivente entrega um resultado morno em sua tentativa de construir uma sátira distópica sobre comunicação de massa e conflitos de classe.

 

Nota: 5/10


Trailer

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