segunda-feira, 2 de março de 2026

Crítica – Kokuho: O Preço da Perfeição

 

Análise Crítica – Kokuho: O Preço da Perfeição

Review – Kokuho: O Preço da Perfeição
Conheço muito pouco sobre o teatro kabuki, forma de encenação tradicional do Japão, então uma das coisas que me atraiu para este Kokuho: O Preço da Perfeição foi ele contar uma história sobre este universo. É um épico dramático que se estende por décadas e analisa os altos e baixos da dedicação de um artista ao seu ofício e a maneira muito particular com a qual o kabuki funciona.

Palco da vida

A narrativa começa no Japão dos anos 60 e é centrada em Kikuo (Ryo Yoshizawa), um jovem filho de um figurão da yakuza. Quando seu pai é assassinado, Kikuo tenta se vingar, mas seu plano falha. Sem ter para onde ir, Kikuo é adotado pelo ator kabuki Hanjiro Hanai (Ken Watanabe). No kabuki apenas homens atuam, isso significa que até papéis femininos são interpretados por homens. Os atores que se dedicam a papéis femininos são chamados de onnagatas e Hanai é um famoso onnagata. Ao adotar Kikuo, Hanai decide treiná-lo para ser um onnagata junto com seu próprio filho, Shunsuke (Ryusei Yokohama). A esposa de Hanai se opõe que ele ensine Kikuo, já que o kabuki é um ofício passado de pai para filho e por ser alguém que não vem de uma linhagem kabuki, Kikuo poderia não ser aceito e isso poderia desonrar até a família de Hanai. Ainda assim, o veterano ator decide preparar Kikuo para o kabuki junto com Shunsuke. Conforme Kikuo demonstra talento e chama a atenção de Hanai, uma rivalidade cresce entre Shunsuke e Kikuo.

Se estendendo ao longo de décadas e com uma duração de quase três horas, a narrativa se estrutura como um grande épico melodramático do percurso de Kikuo na arte e a relação conflituosa que desenvolve com o irmão adotivo ao longo do passar do tempo. A narrativa é eficiente em nos fazer entender o que é o teatro kabuki, seu funcionamento, sua política interna e as disputas que existem nela, mas, mais importante, nos faz sentir a força expressiva dessa forma de performance.

Ao longo do filme vemos os personagens em vários espetáculos diferentes e essas cenas nos fazem sentir a intensidade, principalmente física, dessas performances e como cada uma delas é meticulosamente preparada. Desde as primeiras lições com Hanai, a narrativa evidencia como o kabuki é uma forma extremamente técnica, na qual cada pose, cada movimento, cada postura, cada entonação verbal precisa ser executada com precisão e apenas quem atinge um grau extremo acuidade física consegue se tornar um ator celebrado. Tudo é muito preciso, desde a performance do ator, ao figurino, passando pelos traços da maquiagem e arrumação do cabelo. Não é à toa que a produção está indicada ao Oscar de maquiagem, embora seus méritos se estendem para além das cenas de kabuki. Como a trama vai da década de 70 ao início dos anos 2000, a maquiagem está presente o tempo todo para rejuvenescer ou envelhecer o elenco, sempre muito convincente e natural em seu uso.

Papel de gênero

É curioso, no entanto, como é uma performance tão focada na técnica que estar performando outro gênero não chega a ser uma questão explícita. Existem, claro, elementos subjacentes, como os comentários a respeito da beleza do rosto de Kikuo, como se o belo fosse uma característica intrinsicamente feminina. Talvez o único momento em que essa performance de gênero afeta o personagem é em uma cena na qual sua carreira está em baixa, ele foi ostracizado do meio do kabuki e performa em restaurantes e outros pequenos estabelecimentos. Em uma dessas apresentações, um sujeito vai entregar flores a Kikuo e se declara apaixonado por ele, apenas para se surpreender ao descobrir que se trata de um homem, juntando um grupo de amigos para espancar Kikuo depois.

Ao longo das décadas que transcorrem a narrativa, o filme constrói um retrato bem cuidadoso da busca por um artista para se tornar o melhor em seu ofício e evita certos lugares comuns desse tipo de história. Normalmente narrativas sobre artistas que buscam o topo de seus campos tendem a romantizar demais, tratando o labor artístico como se fosse meramente fruto de inspiração ou de alguma genialidade nata daquela pessoa. Raramente o cinema trata o fazer artístico como um trabalho propriamente dito que requer muita repetição, que precisamos fazer mesmo quando não estamos particularmente inspirados e que tem seus altos e baixos.

O sucesso de Kikuo não é meramente fruto de uma aptidão natural, mas algo aperfeiçoado ao longo do tempo. Do mesmo modo, sucesso e reconhecimento aqui não são uma consequência automática da competência do protagonista. Como em qualquer campo produtivo existem disputas, tradições, estruturas de poder que determinam quem pode ou não ser alçado ao sucesso e quais os parâmetros de ser um bom artista. Aqui, a hereditariedade é um desses fatores e por conta de seu status de intruso, bem como as disputas públicas com Shunsuke pelo posto de herdeiro da casa Hanai.

Por outro lado, o percurso de Kikuo mostra também a natureza sublime da arte, como ela transforma o artista, como o reconhecimento da plateia, dos pares e de si mesmo depois de uma boa performance nos eleva e como buscar esse sentimento motiva alguém a querer sempre melhorar. É um olhar bem maduro sobre o fazer artístico, que entende seus altos e baixos, seus ônus e bônus, que evita considerações simplórias. Também evita maniqueísmos fáceis, já que por mais que Shunsuke sirva como antagonista, ele não chega a ser vilanizado, exibindo uma motivação compreensível para suas ações e camadas de personalidade que não o reduzem a um “irmão invejoso”.

Assim, Kokuho:O Preço da Perfeição entrega um drama épico a respeito da arte como um modo de vida e os desafios da excelência.

 

Nota: 8/10


Trailer

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