Mais nova tentativa de um live action de suas animações clássicas,
A Pequena Sereia é mais uma animação
a usar tecnologia de ponta para recriar de maneira bastante realista o universo
submarino de sua protagonista. A exemplo de produções como o remake de O Rei Leão (2019) esse fotorrealismo
mais tira do que acrescenta à experiência.
Na trama Ariel (Halle Bailey) é
uma sereia sonhadora que anseia em conhecer o mundo da superfície apesar de seu
pai, o poderoso Rei Tritão (Javer Bardem) alertá-la dos perigos que os humanos
representam. Quando Ariel salva o príncipe Eric (Jonah Hauer King) ela se torna
ainda mais decidida em experimentar o modo de vida dos humanos. A sereia decide
aceitar um perigoso acordo com a bruxa do mar Ursula (Melissa McCarthy) para se
tornar humana, mas isso coloca os mares e a superfície em risco.
O filme recria o fundo do mar com
muita fidelidade e competência técnica, mas essa escolha por realismo faz o
reino submarino soar vazio, sem graça e desprovido de encantamento. Isso fica
evidente no número musical de Aqui no Mar,
uma das canções mais marcantes da animação que perde muito da sua energia e
deslumbramento porque as criaturas marinhas estão presas a se movimentarem como
criaturas marinhas. Se até o filme do Aquaman
(2018) conseguiu colocar um polvo tocando bateria, não vejo porque uma trama
mais lúdica e fantasiosa como A Pequena
Sereia deveria se prender tanto ao realismo.
Desde sua narração inicial é
visível que Magic Mike: A Última Dança
é um filme cheio de pretensões conforme a voz da narradora explica como a dança
é capaz de salvar a sociabilidade humana. Se o segundo filme, Magic Mike XXL (2015), que foi dirigido
por Gregory Jacobs e não por Steven Soderbergh como o primeiro e este terceiro,
assumia tranquilamente seu caráter de exploitation
com excessos e comicidade, esse desfecho para a trilogia cai na besteira de se
levar a sério demais como o original e talvez se leve até mais a sério.
Na trama, depois de perder seu
negócio de móveis por conta da pandemia, Mike (Channing Tatum) passa a
trabalhar como barman. É nesse trabalho que ele conhece a ricaça Max (Salma
Hayek), que descobre o passado de Mike e o contrata para uma dança. Encantada
pelo talento e capacidade sedutora de Mike, Max decide levá-lo para Londres
para que ele organize um espetáculo de dança.
Há uma tensão sexual palpável
entre Tatum e Hayek, com Hayek sendo especialmente eficiente em mostrar que por
trás de toda a exuberância e esbanjamento Max tem em si uma grande medida de
insegurança. Os números de dança continuam sendo o ponto alto do filme, com
coreografias grandiosas e uma boa dose de sensualidade, o problema é que esses
dois elementos que seriam os mais promissores são deixados de lado em prol de
ideias inanes. A relação entre Mike e Max fica focada na produção do show e as
danças aparecem pouco.
Fiquei com um pé atrás quando vi
que este I Wanna Dance With Somebody: A
História de Whitney Houston seria feito pelos mesmos produtores de Bohemian
Rhapsody (2018), cinebiografia do Freddie Mercury. Temi que o resultado
fosse a mesma estrutura quadrada que passa superficialmente por vários momentos
da vida de sua personagem principal sem qualquer esforço de ir a fundo neles.
Pois depois de ver o filme posso dizer: é bem isso mesmo.
A trama acompanha Whitney (Naomi
Ackie) desde a juventude em sua trajetória de sucesso até a eventual decadência
por conta das drogas e de uma relação conturbada com o rapper Bobby Brown
(Ashton Sanders). É aquela biografia bem estilo “melhores momentos” que salta
rapidamente entre momentos icônicos da carreira da personagem sem dar tempo
para que nenhum evento seja desenvolvido ou tenha qualquer repercussão.
Conheço pouco do cinema indiano,
mas fiquei curioso para conferir este RRR:
Revolta, Rebelião, Revolução não apenas pelas conversas de que poderia ser
indicado a prêmios internacionais, como também pelo argumento de que ele não
deveria ser indicado a prêmios por se tratar de uma peça de propaganda
nacionalista. Ora, o que são filmes como Top Gun: Maverick (2022), Rambo 3
(1988) ou O Resgate do Soldado Ryan (1998)
se não peças de propaganda nacionalista, feitas para acreditarmos nos Estados
Unidos como essa heroica “polícia do mundo” com interesses puros de promover a
liberdade e democracia ao redor do globo?
Porque Hollywood ou a Europa
podem fazer filmes celebrando suas identidades nacionais e construindo uma
versão de seu relato histórico em que seu povo é sempre o herói, mas populações
colonizadas, como a da Índia, não podem fazer o mesmo? Imagino que muito do que
causou essa recepção do filme se relaciona com o incômodo das populações
europeias e de outros países hegemônicos em se enxergarem como vilões. Muito da
história da colonização foi construída da perspectiva europeia e nela eles se
colocam como bravos descobridores que civilizaram ou dominaram as selvagens e
atrasadas populações dos territórios conquistados.
Confesso que nunca tive lá grande
vínculo com o clássico da Sessão da Tarde Matilda
(1996), achava divertido, assistia quando passava, mas não foi algo tão
presente na minha formação cinéfila. Ainda assim, fiquei curioso para conferir
este Matilda: O Musical, que adapta o
musical teatral baseado no livro de Roald Dahl que inspirou o filme de 96.
A trama é a mesma da versão da
década de 90, Matilda (Alisha Weir) é uma garota precoce e genial negligenciada
pelos pais picaretas que é mandada para a escola dirigida pela rígida Sra.
Trunchbull (Emma Thompson), que sente prazer em humilhar as crianças. Felizmente,
Matilda encontra refúgio nos amigos e na professora Honey (Lashana Lynch).
Tal como o primeiro filme, a
narrativa é sobre como adultos não entendem ou subestimam as crianças, além de
criticar um modelo educacional repressivo que tenta colocar as crianças dentro
de um padrão restrito de conduta através de castigos arbitrários que não educam
coisa alguma. Através de Matilda somos lembrados da inventividade e senso de
imaginação que temos durante a infância, bem como o fato de que crianças as
vezes tem motivos compreensíveis para agir de um modo que adultos considerariam
como travesso.
Com uma trama sobre redenção e
generosidade, não é de se espantar que o romance Um Conto de Natal, de Charles Dickens, siga até hoje como a
quintessência da narrativa natalina. O cinema já adaptou e se inspirou na obra
de Dickens de diversas maneiras e agora Spirited: Um Conto Natalino,
produção da AppleTV+, resolve trazer a história para um cenário contemporâneo e
para o gênero musical.
Na trama, o Fantasma do Natal
Presente (Will Ferrell), ou apenas Presente para simplificar, não se sente mais
desafiado pelo trabalho de redimir pessoas ruins na véspera de Natal e decide
que o próximo alvo dos fantasmas deve ser alguém considerado irredimível, já
que apenas corrigindo alguém assim eles conseguiriam uma mudança significativa
no mundo. O escolhido é o relações públicas Clint (Ryan Reynolds), um sujeito
completamente antiético, disposto a qualquer coisa para destruir seus oponentes
e promover seus clientes.
Com canções escritas por Stephen
Sondheim, um dos melhores compositores a passar pela Broadway, Amor Sublime Amor (1961)foi um dos melhores musicais já feitos.
Assim, o diretor Steven Spielberg tinha uma tarefa difícil nas mãos em tentar
fazer uma nova versão. Existiam aspectos no original que não envelheceram muito
bem que davam uma possibilidade de tentar algo novo, mas o esforço de Spielberg
se escora tanto no original ao ponto em que essa nova versão soa desnecessária.
A trama se passa na década de
1950 em uma zona periférica de Nova York, cujo bairro está sendo demolido para
dar lugar a novos empreendimentos imobiliários. O terreno é também habitado por
duas gangues rivais, os Sharks, uma gangue de imigrantes latinos, e os Jets,
uma gangue formada pela comunidade branca local. Nesse cenário de disputas
floresce o amor proibido entre Maria (Rachel Zegler), uma jovem imigrante irmã
do líder dos Sharks, e Tony (Ansel Elgort), melhor amigo do líder dos Jets e
que está tentando reconstruir a vida depois de sair da cadeia.
Muito se falou sobre como
Spielberg “corrigiu” os problemas do original. A verdade, no entanto, é que
colocar atores de origem latina para os personagens latinos ou não legendar as
falas em espanhol, tratando-a como uma língua tão nativa quanto o inglês, é o
mínimo que se espera de uma adaptação de um filme de sessenta anos em plena
terceira década do século XXI. O filme avança muito pouco em boa parte das
discussões sobre classe e raça em relação ao original, o que soa como um
desperdício de potencial considerando o quanto esse debate avançou e a ascensão
recente de grupos e discursos xenófobos nos EUA. Assim, é estranho que o olhar
de Spielberg acerca de todas essas questões ainda soe tão similar a algo produzido
na metade do século passado.
De certa forma, Encanto, nova animação da Disney, conta
uma típica história de conflitos familiares, com uma jovem que desvia do ideal
de sua família tentando mostrar que ela é tão digna quanto os outros parentes.
Ainda que tenha uma premissa e estrutura conhecidas o filme...err...encanta
pelo desenvolvimento de seus personagens, senso de humor e diversão das
canções.
Na trama, a família Madrigal
criou ao seu redor uma pequena vila no interior da Colômbia depois que a
matriarca encontrou uma vela milagrosa que deu a ela e seus descendentes
poderes mágicos. A jovem Mirabel (voz de Stephanie Beatriz, a Rosa de Brooklyn 99), no entanto, nunca recebeu
nenhuma habilidade mágica da vela e se sente deslocada do restante da família
além de menosprezada pela avó. Problemas surgem quando os poderes de seus
parentes começam a falhar e a casa mágica na qual moram começa a rachar.
É bem óbvio que até o final do
filme Mirabel vai descobrir a magia em si, reparar a relação com a avó e que as
rachaduras na casa são uma metáfora pouco sutil para as fraturas emocionais que
existem entre os membros da família. Ainda assim funciona porque a trama
consegue dar tempo para compreendermos como a rigidez e as cobranças constantes
da avó afetam as primas e tias de Mirabel. Estão todas e todos tão preocupados
em corresponder às expectativas da avó que anulam seus próprios sentimentos e
desejos.
Considero Stephen Sondheim um dos
melhores e talvez o melhor compositor a trabalhar em musicais da Broadway.
Responsável por peças como West Side
Story, Gypsy, A Little Night Music, Sweeney
Todd, Company ou Into The Woods, Sondheim compôs para
alguns dos maiores espetáculos da Broadway, a maioria dos que foram citados
aqui (que representam uma pequena parte da produção dele) inclusive foram
adaptados para cinema com graus variáveis de sucesso. Sondheim nos deixou na
última sexta-feira, 26 de novembro, aos 91 anos e deixa um legado imenso para a
música, o teatro e o cinema.
Como uma pequena homenagem e
celebração ao seu corpus de produção,
resolvi falar um pouco das cinco canções dele que mais gosto. Deixo claro que
faço essa lista com base em preferências pessoais mesmo, daquilo dele que mais
me toca, me impacta. As escolhas também foram baseadas em músicas que servissem
de amostra da versatilidade de Sondheim como compositor, que podia ir de
composições simples a altamente complexas (em geral não é fácil cantar
Sondheim). Em comum, no entanto, todas essas canções são excelentes em externar
aquilo que os personagens sentem. Suas dores, suas dúvidas, seu júbilo e seu
afeto. Muitas vezes tudo isso junto. Mesmo com a dor de termos perdido um
compositor tão singular, encontro conforto em saber que carregarei as músicas
dele comigo para sempre.
Estreia de Lin Manuel Miranda
como diretor, este Tick, Tick...BOOM!
é uma biografia do compositor Jonathan Larson, responsável por Rent um dos musicais teatrais mais
marcantes da década de 1990. Apesar de influente, Larson morreu jovem, antes da
estreia de Rent e nunca viu o sucesso
de seu trabalho.
A trama adapta o monólogo teatral
homônimo escrito e protagonizado por Larson, com cenas do cotidiano do
personagem mais ao estilo de uma biografia tradicional. A narrativa foca na
tentativa de Larson (Andrew Garfield) em emplacar seu primeiro musical,
Superbia, e a pressão que ele sente por estar prestes a fazer trinta anos e não
ter encontrado o sucesso. Então acompanhamos o personagem em sua vida cotidiana
com essas cenas intercaladas pelo personagem performando o espetáculo sobre
esse período da vida dele, como se as cenas no teatro dessem ao espectador a
perspectiva subjetiva do protagonista.
No papel seria um experimento
interessante, com as cenas biográficas e as cenas do teatro dialogando
constantemente. Uma oferecendo o universo interno e subjetivo do personagem e
outra mostrando o universo externo a ele e como Larson se relacionava com as
pessoas ao seu redor. Na prática, no entanto, as cenas biográficas tem pouco a
fazer além de servir como mera ilustração ao monólogo teatral e musical do
personagem. Ele diz algo no palco e entra uma cena ilustrando o que ele disse
sem que essa cena ofereça ao espectador nenhuma nova informação em relação às
cenas no palco.
Filmes musicais estão normalmente
associados à comédia, mas é perfeitamente possível que o gênero trate de temas
mais pesados como suicídio e saúde mental sem parecer que está suavizando a gravidade dessas questões. Querido Evan Hansen,
adaptação de um musical da Broadway de mesmo nome, tenta abordar exatamente
esses temas, mas tem alguns problemas.
Evan (Ben Platt) é um adolescente
tímido que sofre de depressão e ansiedade. Para lidar com isso, seu terapeuta
sugere que ele escreva cartas para si mesmo na tentativa de colocar para fora
seus sentimentos. Um dia ele acidentalmente imprime uma dessas cartas na
escola, que é encontrada por Connor (Colton Ryan) que acha que Evan estava
zombando dele. Dias depois Connor se suicida e a carta de Evan é a única coisa
encontrada com ele fazendo todos acreditarem que aquela era a carta de suicídio
de Connor e que ele e Evan eram amigos. Confrontado pelos pais de Connor, Evan
não consegue dizer a verdade e confirma a mentira, que vai ganhando grandes
proporções conforme a história se espalha e ele passa a apreciar o fato de
finalmente ser notado e ter amigos.
Esta nova versão de Cinderela soa como uma tentativa da
Amazon de produzir um conteúdo semelhante ao da Disney (sendo que eles fizeram
seu próprio Cinderelaem live action em 2015), mas a produção
estrelada por Camila Cabello não consegue sair da sombra da casa do Mickey. A
trama até tem boas ideias, o problema é que a estrutura de musical contado a
partir de números com novas versões de canções famosas não consegue ter
personalidade suficiente para encantar.
Na trama, Ella (Camila Cabello) é
uma jovem que sonha em se tornar estilista e vender vestidos por todo o mundo,
mas seus sonhos vão de encontro à realidade do reino, no qual mulheres apenas
servem para serem esposas e donas de casa. Ela é constantemente maltratada pela
madrasta, Vivian (Idina Menzel), que deseja arrumar bons maridos para as duas
filhas. Enquanto isso, o rei Rowan (Pierce Brosnan) quer que o filho, o
príncipe Robert (Nicholas Galitzine) encontre uma esposa para que ele possa ser
anunciado como o próximo rei.
Produzido pela Sony Animation e
distribuído pela Netflix, A Jornada de
Vivo é aquele tipo de animação infantil que tem a mesma trama que já vimos
em dezenas de outros produtos similares. A produção, no entanto, charme o bastante
para funcionar como uma diversão sem compromisso graças à energia de seus
números musicais.
A narrativa é protagonizada pelo
jupará Vivo (voz de Lin Manuel Miranda) que vive em Cuba com o músico Andrés e
juntos fazem shows de rua. Quando Andrés morre depois de receber uma carta de
seu antigo amor Marta (voz de Gloria Stefan) chamando-o para um show em Miami,
Vivo decide ir para os Estados Unidos entregar a Marta a canção que Andrés
compôs para ele. Para alcançar o seu destino, ele terá ajuda de Gabi,
sobrinha-neta de Andrés que mora nos EUA e vem a Cuba com a mãe para o funeral
de Andrés.
Vivo e Gabi fazem a típica dupla
de opostos que não se dá bem, mas que juntos aprenderão a cooperar e perceberão
que um tem muito a ensinar ao outro. É o tipo de dinâmica que já conseguimos
deduzir com poucos minutos de projeção e cujos desdobramentos e reviravoltas
são fáceis de antever.
Quando foi lançado em 2001 Hedwig: Rock, Amor e Traição não foi
exatamente um sucesso de público, mas com o passar do tempo foi ganhando
seguidores e foi alçado ao status de cult,
com fãs lotando sessões a meia-noite vestidos como os personagens. A
popularidade da produção escrita, dirigida e estrelada por John Cameron
Mitchell aumentou ainda mais graças à série Sex Education que tem um episódio da primeira temporada com os personagens indo
para uma sessão do filme fantasiados como os personagens. A adoração ao filme
não é sem motivos, já que ele conta com ótimas canções, personagens insólitos,
senso de humor e um verdadeiro espírito punk.
A trama acompanha Hedwig (John
Cameron Mitchell), cantora transgênero nascida na Alemanha Oriental e vocalista
de uma banda de punk rock que está em
turnê nos Estados Unidos. Em seus shows ela fala sobre sua trajetória e sobre o
antigo amante que roubou suas músicas e agora faz sucesso como Tommy Gnosis
(Michael Pitt).
Fui conhecer o trabalho de Lin-Manuel
Miranda como criador de musicais da Broadway no excelente Hamilton, peça que retratava a vida de Alexander Hamilton, primeiro
ministro da fazenda dos EUA, como uma espécie de ópera rap protagonizada por
elenco todo composto por negros, latinos e asiáticos. Antes de Hamilton, porém, Miranda já tinha feito
outros musicais, um deles foi In The
Heights, que foi adaptado para os cinemas neste Em Um Bairro de Nova York.
A trama é centrada em Usnavi
(Anthony Ramos), um jovem filho de imigrantes dominicanos que tem uma pequena
mercearia em Washington Heights na periferia de Nova York. Usnavi sonha em
voltar para a República Dominicana, de onde partiu ainda bem pequeno enquanto
que seus vizinhos também lidam com os sonhos e as dificuldades do local,
especialmente com o aumento da especulação imobiliária que dá início a um
processo de gentrificação do bairro.
É um exame afetuoso e enérgico do
que significa ser um imigrante latino-americano ou caribenho nos Estados
Unidos, celebrando a força e união dessa comunidade ao mesmo tempo em que
reconhece as dificuldades experimentadas por um imigrante no país. De um lado
há o olhar sobre o sonho de uma vida melhor, a crença de que em um novo país é
possível tornar sonhos realidade e, ao mesmo tempo, se manter fiel às suas
raízes. De outro há o reconhecimento dos Estados Unidos como um país racista,
que trata imigrante como indivíduos de segunda categoria ou de maneira
desumana. De uma política e estrutura de poder que existe para manter essas
pessoas pobres e marginalizadas.
O filme musical é normalmente
associado a histórias de romance e a um certo otimismo por conta das inúmeras
produções do gênero na Hollywood clássica. Isso não significa que não existam
musicais sobre histórias trágicas e dolorosas, Dançando no Escuro (2000), Lars Von Trier, é um bom exemplo disso,
mas há poucos nessa seara. Este O Que Se
Move, dirigido por Caetano Gotardo, de certa forma se encaixa nesse uso do
formato musical para contar histórias de dor e perda.
Ele se divide em três histórias
de mães que perderam seus filhos em circunstâncias bastante dolorosas. Na
primeira história há um suicídio, na segunda um bebê é esquecido no carro e na
terceira uma mãe reencontra o filho que tinha perdido há dezessete anos. São
tramas marcadas por dores e afetos intensos movendo essas personagens e os
números musicais ajudam a pontuar os sentimentos que atravessam esses
indivíduos.
O musical AFesta de Formatura narra a história de
Emma (Jo Ellen Pellman), uma adolescente lésbica cuja associação de pais da
escola em que ela estuda se recusa a fazer uma festa de formatura na qual ela
possa ir com a namorada. Ao saberem da notícia, um grupo de fracassadas
estrelas da Broadway decide partir a pequena cidadezinha na qual Emma vive para
protestar contra a homofobia do caso e, além disso, se promoverem para
retomarem as carreiras.
Tinha tudo para ser um musical vibrante e divertido com uma
mensagem positiva de enfrentamento dos preconceitos. De certa forma, até é
isso, mas também é demasiadamente arrastado, se alongando por desnecessárias
duas horas e quinze com várias subtramas que apenas repetem as mesmas ideias do
conflito principal envolvendo Emma. Lá pela marca de uma hora, quando a
presidente da associação de pais, Sra. Greene (Kerry Washington), trapaceia na
realização da formatura e deixa Emma sozinha na festa, imaginamos que o filme
caminha para o seu clímax, com as estrelas da Broadway encabeçadas por Dee Dee
Allen (Meryl Streep) organizando uma nova festa ou denunciando a Sra. Greene.
Só que não, ainda há mais de uma hora de filme em que a trama se arrasta para
chegar a esse ponto.
Boa parte dos problemas vem da necessidade da trama em dar a
cada personagem uma subtrama só sua, sendo que muitas dessas histórias soam
redundantes. A narrativa do ator Barry (James Corden) narrando como foi expulso
de casa pela mãe por ser gay toca nas mesmas questões de homofobia da trama
principal, por exemplo. Imagino que todas essas narrativas secundárias já
estivessem presentes no musical teatral que deu origem ao filme, a questão é
que nem tudo que funciona em um meio, funciona em outro.
O discurso contra a homofobia por vezes peca pelo excesso de
didatismo, muitas vezes soando como uma videoaula na qual essas ideias são
explicadas com pouca organicidade. Claro, em muitos momentos o filme lida bem
com isso, em especial no conflito do relacionamento de Emma com a namorada,
Shelby (Sofia Daler), que teme em sair do armário para a mãe. Há também a
questão das variações bruscas de tom, com a narrativa muitas vezes saindo de
uma cena envolvendo um drama sério sobre preconceito para um número musical
alegre e exuberante, com essas transações por vezes soando abruptas.
O ponto alto, logicamente, são os números musicais. Repletos
de cor, energia e exuberância, as canções retratam os sonhos românticos de Emma
ou os desejos de grandeza dos astros da Broadway. As canções também trazem uma
boa dose de humor, reconhecendo que o núcleo da Broadway está agindo mais por
ego do que por crença, com Meryl Streep e Nicole Kidman vendendo muito bem a
falta de noção e desespero por holofotes dessas personagens.
Eu queria ter gostado mais de A Festa de Formatura por causa de suas canções divertidas e elenco
carismático, mas seu ritmo arrastado e excesso de subtramas atrapalham a
experiência.
Lançado em 1986, A
Pequena Loja dos Horrores não é exatamente um remake direto do filme homônimo feito em 1960 dirigido pelo
lendário Roger Corman. Na verdade, a versão de 1986 é uma adaptação do musical
da Broadway, sendo, também um musical. Essa mistura entre horror, comédia e
musical é um dos elementos que torna o filme tão memorável e o transformou em cult.
Dirigido por Frank Oz (que faz a voz do Yoda na franquia Star Wars), o filme acompanha Seymour
(Rick Moranis), um florista tímido e retraído cuja vida muda quando ele
encontra uma estranha planta durante um eclipse. Apaixonado pela colega de
trabalho, Audrey (Ellen Greene), Seymour nomeia a planta como Audrey II (voz de
Levi Stubbs) e acredita que a estranha planta pode melhorar os negócios da
dilapidada floricultura em que trabalha. O problema é que Audrey II precisa ser
alimentada, com sangue fresco, o que causa problemas para Seymour.
Só pela sinopse já é possível perceber que são temas que se
distanciam bastante do romantismo ingênuo no qual boa parte do musical clássico
hollywoodiano se construiu ao longo das décadas de 1930 a 1960 e boa parte da
graça do filme é exatamente o modo como brinca com essas convenções. Ver o
sádico dentista Orin (Steve Martin) alegremente cantar sobre como adora causar
dor aos seus pacientes diverte justamente pela oposição das melodias alegres
com as letras e ações do personagem que fala sobre seu prazer em torturar as
pessoas.
Dirigido por Jean-Luc Godard um ano depois de Acossado (1960), filme que o lançou em
evidência no mundo todo, este Uma Mulher
é Uma Mulher segue a tendência iconoclasta do diretor em brincar com as
convenções dos gêneros hollywoodianos. Se em Acossado Godard jogava com a iconografia do noir, aqui Godard joga com os elementos típicos do filme musical.
Na trama, Angela (Anna Karina) é uma dançarina que sente o
desejo de ter um filho, mas o namorado dela, Emile (Jean-Claude Brialy), está
hesitante. Emile sugere que Angela tenha um filho com Alfred (Jean-Paul
Belmondo), melhor amigo dela. Angela acaba achando a sugestão uma boa ideia e
isso logicamente cria uma crise no relacionamento dos dois. Boa parte das
razões pelas quais o filme é tão lembrado é pela direção iconoclasta de Godard,
mas não se pode negar o carisma do trio principal, especialmente Anna Karina,
envolvente e encantadora como Angela, convencendo de como sua personagem seria
capaz de mobilizar a atenção dos homens ao seu redor.
Feel the Beat,
produção original da Netflix, tem uma trama bem presa a lugares-comuns.
Apresenta uma narrativa sobre uma jovem que perde sua grande chance na Broadway e
acaba voltando para sua cidade natal no interior e precisa reconstruir a vida.
Já vimos inúmeros filmes com premissas parecidas e Feel the Beat não sai muito do traçado desse tipo de filme.
Na trama, April (Sofia Carson) é uma jovem dançarina com
aspirações de fazer sucesso na Broadway. Depois de um mal entendido com uma
poderosa diretora, April vê sua carreira acabar praticamente antes de começar.
Sem chances, ela retorna a sua cidade natal. Uma chance de retornar à dança
aparece quando sua antiga professora de dança, Barb (Donna Lynn Champlin, a
Paula de Crazy Ex-Girlfriend), que a
chama para ajudar o estúdio de dança em uma competição nacional. Assim, April
tentará usar a competição para ganhar notoriedade e retornar a Broadway, mas as
desajustadas alunas de Barb podem dar mais trabalho do ela esperava.
É claro que ao longo da competição ela irá aprender com as
alunas a ser mais humilde e as alunas aprenderam a importância da dança. É
evidente que terão uma escola rival composta por esnobes com técnica impecável,
mas sem o coração das alunas desajustadas de April. É lógico que no clímax
April terá que escolher entre o sucesso na Broadway que tanto almeja e a
lealdade a suas alunas. É tudo extremamente previsível, mas, ainda assim, o
filme consegue envolver graças ao carisma do elenco.