Não esperava nada de Homem-Aranha: No Aranhaverso(2018) e
ele foi uma das melhores produções de 2018. Digo não apenas em termos de
animação, mas no geral. É lógico, portanto, que as expectativas estariam em
alta para este Homem-Aranha: Através do
Aranhaverso. Expectativas são uma coisa perigosa, podendo derrubar mesmo
uma produção competente caso ela não corresponda a todo o hype criado. Felizmente não é o caso aqui, que aprofunda boa parte
das ideias do original, ainda que eu tenha alguns problemas no modo como o
filme decide encerrar.
A trama se passa algum tempo
depois do primeiro. Miles (Shameik Moore) está mais confortável no seu papel de
Homem-Aranha, ainda que continue com dificuldade de conciliar isso com a escola
com a relação com os pais. As coisas se tornam ainda mais severas com a
aparição do vilão Mancha (Jason Schwartzman), cujo poder de criar portais mais
uma vez ameaça o multiverso. É nesse ponto que Gwen (Hailee Steinfeld) retorna
ao universo de Miles. Como parte de uma força-tarefa multiversal de “pessoas
aranha” que caça focos de instabilidade Gwen está lá para deter o Mancha, mas o
líder da equipe, Miguel O’Hara (Oscar Isaac), o Homem-Aranha do ano 2099, tem
seus próprios planos em relação a Miles.
Depois de um segundo filme que
ficou abaixo do original, ainda que divertido, o diretor James Gunn retorna
para um terceiro (e último, já que agora ele está a frente das produções da DC
na Warner) filme neste Guardiões da
Galáxia Vol. 3 e traz uma emocionante conclusão para a história que começou
no filme original.
A trama segue mais ou menos no
ponto em que encontramos a equipe ao final de Guardiões da Galáxia: Especial de Festas(2022). Os Guardiões
reconstruíram Luganenhum e agora usam o local como base, cuidando da população.
Tudo muda quando são subitamente atacados por Adam Warlock (Will Poulter), que
deixa Rocket (Bradley Cooper) gravemente ferido. Os equipamentos médicos dos
Guardiões não conseguem curar o companheiro por conta da tecnologia específica
que foi usada em seu aprimoramento. Assim, Peter Quill (Chris Pratt) e seus
aliados partem em busca da corporação liderada pelo perigoso Alto Evolucionário
(Chukwudi Iwuji).
Depois de ter a presença sugerida
em outras produções da Marvel, Homem-Formiga
e a Vespa: Quantumania finalmente introduz o vilão Kang, a próxima grande
ameaça a ser enfrentada pelos heróis. O filme não é livre de problemas, mas
mostra como Kang faz juz a toda expectativa criada sobre ele.
A trama mostra Scott (Paul Rudd)
tentando se reconectar com a filha, Cassie (Kathryn Newton). Quando ela cria
uma espécie de telescópio para o reino quântico, isso desperta temor em Janet
(Michelle Pfeiffer), que tenta desligar o aparelho. Antes que consigam, porém,
Scott, Cassie, Janet, Hope (Evangeline Lilly) e Hank (Michael Douglas) são arrastados para o reino quântico. Lá eles
precisam sobreviver aos estranhos perigos do local e ao temível Kang (Jonathan
Majors), que vê nas partículas Pym um meio de finalmente sair do reino
quântico.
Assim como falei em Lobisomem da Noite, gosto desse formato
da Marvel de especiais mais soltos e mais curtos, que vão direto ao ponto sem
demandar que precisemos assistir meia dúzia de filmes antes ou aguentar mais de
duas horas e meia de filme. Este Guardiões
da Galáxia: Especial de Festas cumpre exatamente o que se propõe: ser um
divertido especial de fim de ano ao mesmo tempo em que posiciona algumas
dinâmicas para o terceiro filme dos Guardiões.
A trama foca principalmente em
Drax (Dave Bautista) e Mantis (Pom Klementieff). Depois de ouvirem como Yondu
(Michael Rooker) sabotou o Natal de Peter (Chris Pratt) desde a infância, a
dupla decide trazer o Natal da Terra até Peter. Para isso Drax e Mantis decidem
vir à Terra e sequestrar o ator Kevin Bacon (interpretando a si mesmo) para
levá-lo de presente a Peter.
Quaisquer que fossem os planos
originais da Marvel e do diretor Ryan Coogler para o segundo filme do Pantera Negra, eles foram inequivocamente abalados pela prematura morte do astro
Chadwick Boseman. É preciso ter isso em mente ao analisar este Pantera Negra: Wakanda Para Sempre, que
certamente precisou fazer várias gambiarras narrativas para adaptar as ideias
originais, ser respeitoso com o falecimento de seu astro e atender às demandas
corporativas da Marvel e a construção de seu universo cinematográfico.
A narrativa começa justamente com
Wakanda lidando com o falecimento de T’Challa (Chadwick Boseman) por uma doença
misteriosa. Um ano depois, Wakanda e seu valioso vibranium são alvo de ataques
das potências mundiais que buscam o valioso recurso. O mundo acha que sem o
Pantera Negra, a rainha Ramonda (Angela Bassett) e a princesa Shuri (Letitia
Wright) estão vulneráveis. Ao mesmo tempo, quando uma plataforma marítima que
pesquisava vibranium é atacada por estranhos seres aquáticos, o mundo desconfia
de Wakanda. O líder desses seres, Namor (Tenoch Huerta) se revela para Ramonda
e Shuri pedindo que Wakanda entregue a ele os responsáveis pela pesquisa com o
vibranium submarino. Agora elas precisam ponderar como proceder com ameaças por
todos os lados.
A ideia de fazer uma série da Mulher-Hulk
estruturada como uma comédia jurídica estilo Ally McBeal parecia promissora e coerente com o humor das histórias
da personagem durante a fase comandada por John Byrne, que inseriu
características como o fato de Jen falar diretamente ao leitor, e também de
arcos mais recentes que colocavam a Mulher-Hulk para explorar a maluquice do
lado jurídico do universo Marvel. Em geral Mulher-Hulk:
Defensora de Heróis se sai bem em sua proposta de ser uma comédia e
apresentar um formato diferente das tramas do MCU, embora o formato escolhido
também soe como um grilhão em muitos momentos.
A trama é protagonizada por
Jennifer Walters (Tatiana Maslany), advogada e prima de Bruce Banner (Mark
Ruffalo). Durante um acidente de carro, Jen se contamina com o sangue de Bruce
e acaba se transformando também em uma Hulk. Ao contrário do primo, Jen
consegue controlar facilmente a transformação e tenta retornar a sua vida
normal. Logicamente a advogada não consegue retornar a esse senso de
normalidade, precisando lidar com o cotidiano de sua profissão como advogada e
também com as demandas de ter super-poderes, incluindo ser advogada de outros
heróis.
Depois que Cavaleiro da Luaprometeu algo mais ao estilo de um estudo de
personagem e acabou entregando um clímax que se entregava a todos os
lugares-comuns de histórias de super-heróis, Ms. Marvel chega para entregar uma trama focada em sua protagonista
de maneira mais coesa. Apesar de ter seus momentos de ação, o interesse
principal é o amadurecimento de sua protagonista e como ela lida com questões
de identidade e pertencimento. Aviso que o texto contem SPOILERS da série.
Na trama, Kamala (Iman Vellani) é
uma adolescente de origem paquistanesa que é fã de super-heróis, principalmente
da Capitã Marvel (Brie Larson). A vida de Kamala muda quando ela usa um antigo
bracelete que pertenceu a sua bisavó e ganha estranhos poderes de manipular
energia. Essas habilidades colocam ela na mira do Controle de Danos, agência
governamental que monitora indivíduos com potencial destrutivo, e também de um
grupo de seres poderosos interessados no bracelete.
A trama é menos sobre combater
uma ameaça específica e mais sobre Kamala compreender seu lugar no mundo como
uma filha de imigrantes que vive em um constante entrelugar entre o país no
qual nasceu, com tudo que ela se identifica nele, e a cultura de sua família
cuja comunidade é parte integral da vida dela. É uma questão que impacta boa
parte das segundas gerações de imigrantes, principalmente dos imigrantes que
são tratados como cidadãos de segunda classe ou como ameaça pelos EUA, a
exemplo dos muçulmanos.
Devo confessar que apesar de
gostar de muita coisa que o Taika Waititi fez por trás das câmeras, não me
agradei muito com Thor: Ragnarok. A
impressão é que o filme não conseguia equilibrar seu humor com as necessidades
da trama e que Waititi estava mais interessado na maluquice espacial do que nos
problemas de Asgard ou em introduzir a chegada de Thanos. Pois neste Thor: Amor e Trovão o diretor se sai um pouco melhor.
A trama é praticamente a mesma de
Ragnarok, depois de perder tudo que
valorizava, Thor (Chris Hemsworth) precisa se redescobrir e encontrar um novo
propósito. Aqui as coisas se complicam quando o vilão Gorr (Christian Bale)
sequestra crianças asgardianas e também pela descoberta de que sua antiga
amada, Jane (Natalie Portman), agora empunha o Mjolnir.
Ao contrário do que acontecia no
filme anterior do Thor, a condução de Waititi sabe dosar a comédia com os
momentos de desenvolvimento de personagem, evitando sabotar a construção das
tramas com piadas inoportunas. Isso permite um desenvolvimento mais consistente
da relação entre Thor e Jane conforme eles navegam pelo reencontro que abre
velhas feridas e tentam encontrar uma maneira de reconstruir a relação.
Depois que Venom(2018) fez mais sucesso que a Sony esperava, o estúdio resolveu
fazer mais filmes de personagens secundários do universo do Homem-Aranha, o que
resultou neste Morbius. A decisão, no
entanto, parecia ignorar o contexto do sucesso do filme do simbionte. Venom é
um personagem com uma ampla base de fãs e era protagonizado por um ator
carismático que mais de uma vez tinha mostrado ser capaz de segurar um grande blockbuster.
Nada disso, no entanto, se aplica
a Morbius, que pega um personagem de
quinto escalão das histórias do Homem-Aranha, muito longe da popularidade do
Venom.Ainda por cima escalam Jared
Leto, um ator que nos últimos anos só tem atraído antipatia do público, em
especial do público de filmes de super-heróis devido ao seu pavoroso trabalho
como Coringa em Esquadrão Suicida(2016), por suas presepadas de
bastidores devido à “imersão” em seus personagens que não necessariamente
resulta em bons filmes ou boas atuações. Então de cara Morbius já era um filme que não prometia muita coisa, o que
surpreende é como ele consegue entregar ainda menos do que as expectativas já
baixas a seu respeito indicavam.
O primeiro Doutor Estranho(2016) apresentava ao lado mais bizarro da Marvel,
ainda que preso a uma trama excessivamente convencional que era basicamente uma
versão com magia do primeiro Homem de
Ferro (2008). Este Doutor Estranho no
Multiverso da Loucura prometia levar as coisas ainda mais para o lado
sombrio e psicodélico e graças à direção de Sam Raimi o filme cumpre o que
promete.
Na trama, a viajante
interdimensional America Chavez (Xochitl Gomez) chega ao nosso universo, sendo
encontrada pelo Doutor Estranho (Benedict Cumberbatch) que tenta protegê-la dos
poderosos seres que a perseguem. Para entender o poder de viajar entre
universos possuído por America, o Doutor Estranho recorre à ajuda de Wanda
(Elizabeth Olsen), mas a Feiticeira Escarlate tem seus próprios planos para a
garota.
Colocar Stephen Strange para
viajar pelo multiverso é uma ótima desculpa para que Raimi exercite sua
capacidade de introduzir criaturas bizarras, visuais psicodélicos e momentos de
horror que só não são mais impactantes pela baixa classificação indicativa do
filme. Ainda assim, encontrei sustos que não esperava em uma produção voltada
para o publico mais novo. A condução de Raimi consegue criar cenas bem
singulares, como o segmento em que um Estranho zumbi comanda um exército de
espíritos sombrios e que não soaria deslocado em um filme da franquia Evil Dead. Do mesmo modo, a ação usa de
maneira criativa as diversas habilidades de heróis e inimigos, seja na luta
contra Gargantos em Nova Iorque, seja no modo como America usa seus portais
para lutar ou na batalha que envolve os Illuminati, a ação sempre tem algo
inesperado a nos oferecer.
Tive minhas desconfianças quando
os envolvidos com Cavaleiro da Lua,
do diretor Mohamed Diab aos astros Oscar Isaac e Ethan Hawke, passaram a
divulgação inteira se referindo à série como um estudo de personagem.
Considerando o padrão das histórias dos filmes e séries da Marvel, no entanto,
não imaginei que o produto final fosse levar isso a cabo, mas, de fato, os seis
episódios colocam no centro o estudo da personalidade fraturada de seu
protagonista. Isso, porém, não significa que a série seja livre de falhas.
Na trama, Steven (Oscar Isaac) é
um pacato funcionário de museu que vê sua vida virar ao avesso quando começa a
ser perseguido pelo misterioso líder de seita Arthur Harrow (Ethan Hawke).
Aparentemente Harrow busca um artefato que lhe permitiria ressuscitar a cruel
deusa egípcia Ammit e esse artefato estaria com Steven. A questão é que Steven
tem uma personalidade alternativa, o aventureiro mercenário Marc Spector. Marc
serve como avatar do deus Konshu (F. Murray Abraham) na Terra, se transformando
no implacável Cavaleiro da Lua. Agora Marc/Steven precisa resolver sua
personalidade fraturada ao mesmo tempo que impede Harrow de reviver Ammit.
O primeiro episódio já estabelece
um claro tom anti-programático em relação ao que se espera de uma trama da
Marvel. Todas as cenas de ação são abruptamente cortadas toda vez que Marc
assume o lugar de Steven, com o personagem confuso em relação ao que aconteceu.
Isso permite a trama focar nos dramas de seu protagonista, nas tensões entre
ele e o deus Konshu e também no embate moral em relação a Harrow.
Apesar de ser um membro fundador
dos Vingadores, o Gavião Arqueiro até então não tinha recebido o devido
holofote. Mesmo a Viúva Negra recebeu seu próprio longa-metragem e nada do
Gavião ter seu momento de protagonismo. Isso muda com a primeira temporada de Gavião Arqueiro, que não apenas
aprofunda o que sabemos sobre Clint Barton, como abre caminho para sua
sucessora ao nos apresentar a Kate Bishop.
Na trama Clint (Jeremy Renner)
está em Nova Iorque com os filhos para compras de Natal e prestes a retornar à
fazenda na qual vive com a família. Problemas surgem quando a jovem Kate Bishop
(Hailee Steinfeld) esbarra em um leilão ilegal que vende itens retirados do
complexo dos Vingadores depois da batalha contra Thanos em Vingadores: Ultimato(2018). Entre os itens estão um relógio que
pertence a alguém que Clint conhece e o uniforme de Ronin usado por Clint
durante o período do Blip. Sem saber que Clint era o Ronin, Kate sai usando o
uniforme pelas ruas da cidade, o desperta hostilidade de vários criminosos, então
Clint precisa encontrá-la e confrontar seu passado como Ronin.
As primeiras informações sobre Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa me
deixaram preocupado. Afinal, a Marvel estava basicamente adaptando uma das
piores histórias recentes do herói nos quadrinhos, o arco em que ele pede a
Mephisto para apagar a memória de todos a respeito de sua identidade, apenas
substituindo aqui Mephisto pelo Dr. Estranho (Benedict Cumberbatch). Retificar
a continuidade (ou retcon) é um dispositivo dramatúrgico preguiçoso, que
“reseta” um personagem por alguma conveniência de roteiro e tira todo o peso do
que veio antes. Neste novo filme do teioso a Marvel parecia usar da nostalgia,
trazendo vilões (e outros personagens) de filmes passados, para nos fazer
esquecer que estamos diante de um retcon covarde.
Tendo visto o filme, posso dizer
que alguns dos meus temores estavam equivocados, enquanto outros se confirmaram.
A primeira coisa é que esses personagens de outrora não estão ali apenas por um
nostalgismo rasteiro, a presença deles aqui tem muito a dizer sobre a jornada
de Peter Parker (Tom Holland), o que está no cerne do Homem-Aranha e qual é a
essência do heroísmo. Todo mundo meio que concorda que um herói é aquele que
faz o bem, no entanto, a ideia de qual bem é esse que um herói faz pode variar.
Ao colocar o atual Peter diante da encruzilhada de enviar antigos vilões para a
morte certa, a trama nos lembra que um herói é alguém que, acima de tudo, salva
pessoas, mesmo vilões. A noção de Peter se arriscar por indivíduos que querem
matá-lo também dialoga com os temas de poder e responsabilidade que sempre
acompanharam o personagem.
O primeiro Venom(2018) não era lá grande coisa, mas encerrava com um gancho
para continuação que talvez rendesse algo melhorzinho por conta da presença do serial killer Cletus Kasady. Pois bem,
este Venom: Tempo de Carnificina tenta
pegar o gancho final do primeiro e não faz nada de muito interessante.
Na trama, Eddie Brock (Tom Hardy)
consegue uma entrevista exclusive com o serial
killer Cletus Kasady (Woody Harrelson), mas durante a conversa Brock é mordido
por Kasady, que fica com o pedaço do simbionte de Eddie. Usando o novo
simbionte para se tornar o perigoso Carnificina, Cletus foge da cadeia e começa
a causar destruição por onde passa. Cabe a Eddie Brock e ao simbionte Venom
deter a nova ameaça.
De cara incomoda como a relação
entre Brock e Venom parece estagnada em relação aos eventos do filme anterior.
No final do primeiro Brock parecia ter aceito a condição de “protetor letal”
permitindo que Venom devorasse bandidos. Aqui, no entanto, tudo parece ter
voltado à estaca zero, com o filme dando a desculpa de que as autoridades ainda
estavam à procura do simbionte por causa dos eventos do filme anterior, sendo
que nada disso tinha sido dito no final do primeiro filme quando Eddie deixa
Venom devorar um assaltante. Assim, ao invés de mover adiante a relação dos
personagens, tudo soa estagnado, repetindo o que já tinha sido feito no
primeiro filme, sendo que o primeiro filme não é exatamente bom.
Muitos defeitos do anterior
também retornam, como o fato de que o texto não consegue fazer Eddie soar como
um competente repórter investigativo. Porque inicialmente ele recusaria uma
exclusiva com um serial killer?
Porque ele aceitaria publicar uma fala de Cletus que claramente é uma mensagem
cifrada sendo que isso poderia ser um código para que crimes fossem cometidos
em nome dele? É um tipo de coisa que deveria passar pela cabeça de um
jornalista experiente, mas Brock continua a agir como um amador estúpido.
Do mesmo modo, a relação entre
Venom e Eddie continua sendo apresentada mais como uma espécie de comédia
romântica e menos como um sujeito lidando com um parasita alienígena querendo
controlar seu corpo. Ao fazer Venom engraçadinho, o filme diminui a capacidade
intimidadora da criatura como um predador voraz e letal, impedindo que Venom
seja aqui a presença imponente que o texto visa construir.
Qualquer um que já tenha
assistido Assassinos por Natureza (1994)
sabe que Woody Harrelson é perfeitamente capaz de fazer um serial killer caipira cruzando o país ao lado de um interesse
romântico igualmente letal. A escalação dele como Cletus Kasady seria um acerto
fácil, no entanto, não funciona por conta de um texto que não sabe fazer com o
personagem. Kasady muda de personalidade o tempo todo, uma hora sendo enquadrado
como um completo lunático e sádico, um psicopata cruel que busca destruição e
dor. Em outros momentos o filme tenta transformar Cletus em uma vítima das
circunstâncias, um coitado solitário e incompreendido que se tornou violento
por causa dos abusos que sofreu e só queria ser amado. Essas duas abordagens
entram em conflito uma com a outra e o personagem acaba soando vazio.
Não ajuda que o roteiro tenha uma
série de incoerências e elementos mal explicados ou desenvolvidos. Porque, por
exemplo, Cletus só queria dar entrevista para Eddie? O filme nunca dá uma
justificativa crível para isso e soa mais como algo que acontece porque precisa
acontecer para mover a trama. Do mesmo modo, porque exatamente o simbionte
Carnificina precisa matar Venom? É estabelecido desde o início que Carnificina
é naturalmente mais poderoso que Venom, então qual a razão dessa obsessão em
matar o “pai”? Porque Venom fica assustado ao ver Carnificina pela primeira
vez, explicando que é por ele ser vermelho? Qual o motivo do inimigo ser um
simbionte vermelho afetar tanto Venom?
A ação abusa de névoa e espaços
mal iluminados, provavelmente para facilitar os efeitos especiais que criam as
criaturas, mas assim como no anterior são escolhas que tornam tudo
incomodamente escuro. As lutas entre simbiontes continuam parecendo que duas
manchas de tinta foram jogadas em uma folha de papel. São menos confusas que o
filme anterior por causa das cores mais díspares entre as criaturas, entretanto
não empolgam como deveriam. Parte do motivo da ação não empolgar é que o filme
nos diz o tempo todo como esses seres são monstros carniceiros devoradores de
gente, porém nunca vemos essa violência e brutalidade nas cenas de ação, já que
o filme tem classificação indicativa baixa e não pode mostrar nada muito
explícito.
Não esperava nada de Venom: Tempo de Carnificina e ainda
assim o filme conseguiu decepcionar sendo pior que o primeiro em praticamente
tudo.
Eu fiquei com um pé atrás com o
anúncio deste Marvel’s Guardians of the
Galaxy, afinal a incursão anterior da Square-Enix neste universo foi o
problemático, ainda que divertido, Marvel’s Avengers, que tentava ser várias coisas ao mesmo tempo e não fazia nenhuma
direito. Tudo bem que ele foi desenvolvido pela Crystal Dynamics (responsável
pelos recentes Tomb Raider), enquanto
que este novo jogo dos Guardiões da Galáxia estava sob a batuta da Eidos Montreal
(que desenvolveu os recentes Deus Ex),
mas ainda assim temi que a Square, que era a publisher, poderia interferir e repetir os mesmos problemas do game
dos Vingadores. Felizmente isso não aconteceu e Marvel’s Guardians of the Galaxy é uma experiência concisa e focada
em uma narrativa de um jogador, que mostra o valor desse tipo de experiência
que a indústria parece disposta a não fazer a despeito de sucessos como God of War e Jedi Fallen Order.
Na trama, os Guardiões já estão
juntos há algum tempo e tentam faturar alto ao capturarem e venderem um monstro
poderoso para a temível Lady Hellbender. A missão dá errado e eles são pegos
pela Tropa Nova, acidentalmente se colocando no caminho da Igreja da Verdade
Universal e seus planos de dominação galáctica. Agora o grupo precisa se unir e
superar as diferenças para salvar o universo.
Fui sem saber o que esperar deste
Eternos. Sinceramente temi que fosse
mais um filme de origem “padrão Marvel” sem nada digno de nota, mas a presença
da diretora Chloe Zhao me deu alguma esperança que pudesse ser diferente. O
resultado é algo que mal parece um filme da Marvel, o que é ótimo considerando
que nos últimos anos o estúdio estava se apegando demais aos próprios clichês.
Na trama, os Eternos são um grupo
de seres imortais e extremamente poderosos enviados pelos Celestiais para
proteger a Terra dos Deviantes, seres cósmicos extremamente poderosos. Exceto
para enfrentarem os Deviantes, os Eternos não devem se revelar ou interferir na
vida dos humanos. Apesar de acreditarem que exterminaram todos os inimigos há
séculos, Sersi (Gemma Chan) se surpreende ao ser atacada por um deles em
Londres e resolve reunir o grupo para enfrentar a nova ameaça e parte em busca
de Ajak (Salma Hayek), a líder da equipe.
Confesso que não sabia muito o
que esperar deste Shang-Chi e a Lenda dos
Dez Anéis, não conhecia muito do personagem nos quadrinhos e temia que essa
fosse ser mais uma história de origem “padrão Marvel” no estilo do primeiro Homem-Formiga (2015) ou Capitã Marvel(2019). O resultado final
da aventura introdutória de Shang-Chi, no entanto, é bem divertida e constrói
uma identidade própria para si ao mesmo tempo que a situa em meio aos eventos
do universo Marvel.
Na trama, Shang-Chi (Simu Liu)
vive há dez anos nos Estados Unidos depois de ter fugido do pai, Wenwu (Tony
Leung), que controla o sindicato criminoso conhecido como Os Dez Anéis (que
vinham aparecendo desde o primeiro Homem
de Ferro) com seus anéis de poder que fornecem vida eterna e incríveis
poderes. Shang vive uma vida descompromissada ao lado da amiga Katy
(Awkwafina), até que são atacados pelos capangas de Wenwu que buscam o pingente
do herói que pode conter a localização para a mágica vila de Ta Lo. Assim,
Shang-Chi e Katy tem que correr contra o tempo para encontrar Ta Lo antes de
Wenwu.
Primeira série animada dentro do
universo cinematográfico da Marvel, What
If...? brinca com a cronologia ao mesmo tempo que sedimenta a noção de
multiverso que deve ser importante nas próximas produções. Narrada pelo Vigia
(voz de Jeffrey Wright), cada episódio conta a história de um universo paralelo
diferente em que uma pequena mudança nos eventos promoveu alterações radicais.
Essa estrutura de antologia e de
histórias fora do universo principal permite explorar diferentes gêneros que os
filmes da Marvel muitas vezes não se aproximam, como o terceiro episódio focado
em uma trama investigativa, o quinto episódio que traz uma trama de zumbis ou o
oitavo episódio que é praticamente uma comédia adolescente. Isso contribui para
dar certo frescor a elementos já conhecidos desse universo, agregando outros
olhares.
As tramas são hábeis em remeter ao
que foi estabelecido desses personagens na cronologia principal e como esses
elementos se comportariam nas alterações propostas por cada história. Assim, a
natureza conciliadora de T’Challa (Chadwick Boseman) faria dele um Senhor das
Estrelas menos anárquico e um líder mais inspirador do que Peter Quill. Do
mesmo modo, um Hank Pym que perdeu tudo para a SHIELD transferiria sua raiva e
rancor de maneira violenta e precisa contra organização (lembrem da fala de
Howard Stark sobre o perigo que seria torná-lo um inimigo na cena inicial de Homem-Formiga), um Thor que não cresceu
com as disputas e manipulações de Loki seria um festeiro irresponsável e daí em
diante.
Não dá para dizer que Marvel’s Avengersteve um lançamento
suave. Embora apresentasse uma ótima campanha single player, o jogo se perdia
em um componente online com pouco conteúdo, missões repetitivas e um sistema de
progressão de equipamentos entediante. As primeiras expansões envolvendo Kate Bishop
e o Gavião Arqueiro davam mais personagens e boas histórias, mas traziam pouca
variedade em termos de novos inimigos e mecânicas. Nesse sentido, War For Wakanda, a maior das três
expansões até aqui, representa um passo na direção certa, oferecendo novos
inimigos, mecânicas e ambientes.
A trama começa quando T’Challa
detecta a invasão de Ulysses Klaue e seu grupo de mercenários a Wakanda. Klaue
quer roubar o vibranium do país, mas os equipamentos dele causam instabilidade
no minério o que cria vários problemas. O Pantera Negra parte para conter a
invasão e logo recebe os demais Vingadores a Wakanda, que vieram pedir ajuda ao
rei para lidar com os problemas de instabilidade do vibranium que afetam o
mundo inteiro. Assim, os Vingadores auxiliam o Pantera a lidar com Klaue para
recrutar a ajuda dele. O T’Challa encontrado aqui é diferente do jovem monarca
dos filmes da Marvel, sendo um rei mais experiente e confiante que já ganhou o
respeito de seu povo e se beneficiando da dublagem poderosa de Christopher
Judge (que fez o Kratos no último God of War) que confere autoridade e imponência ao Pantera.
Se WandaVision serviu para abrir mais as portas para as possíveis
loucuras do lado mágico da Marvel e o multiverso que vinha com ele, a série Loki escancara ainda mais o interesse da
Marvel em explorar a ideia de multiverso e ter sido como o arco compartilhado
para os próximos filmes e série.
A trama começa referenciando
alguns eventos de Vingadores: Ultimato
(2018) quando Loki (Tom Hiddleston) escapa dos Vingadores usando o Cubo
Cósmico. Isso representa um desvio da linha do tempo principal, que previa Loki
sendo preso em Asgard, então a Agência de Variância Temporal, ou AVT, vai atrás
de Loki para “podá-lo” da linha temporal e a ramificação que sua fuga
representa. Ao invés disso, Loki acaba sendo recrutado pelo agente Mobius (Owen
Wilson) para ajudar na caçada de outra variante que está causando caos na linha
do tempo.
Chama atenção o design dos escritórios da AVT que parece
uma espécie de escritório burocrático dos anos 50 com tons futuristas, dando a
impressão de algo familiar, mas com uma camada de estranhamento. A ideia da AVT
encarar toda a bizarrice de seu trabalho cotidiano como um mera função
burocrática, a exemplo das gavetas cheias de joias do infinito, é também
reforçado nas condutas daqueles que trabalham ali como Mobius. O agente
temporal e Loki formam uma sincera dinâmica cômica com os modos secos do fleuma
burocrático de Mobius contrastando com a personalidade ególatra e grandiloquente
de Loki.