terça-feira, 24 de setembro de 2019

Crítica - Yesterday


Análise Crítica - Yesterday


Review - Yesterday
Uma comédia romântica sobre um universo no qual os Beatles nunca existiriam escrita por Richard Curtis, o mesmo criador de clássicos do gênero como Um Lugar Chamado Notting Hill (1999), Simplesmente Amor (2003) e Questão de Tempo (2013)? Yesterday tinha tudo a seu favor para ser um clássico instantâneo, das icônicas músicas dos Beatles a um texto de alguém que em pleno domínio do gênero no qual está inserido. Na prática, no entanto, no resultado final não está à altura de sua premissa.

A trama começa com Jack (Hamish Patel) que há anos tenta vencer, sem sucesso, no mundo da música. Ele é auxiliado por Ellie (Lily James) sua melhor amiga desde o colegial e talvez a única pessoa que acredita em Jack. Um dia o mundo é tomado por um misterioso blecaute e Jack é atropelado por um ônibus. Ao acordar Jack descobre que ninguém mais lembra da música dos Beatles, como se a banda não tivesse existido. Ele, então, decide usar as músicas da banda como se fossem suas para poder fazer sucesso.

A premissa poderia ser um ótimo meio de examinar a influência dos Beatles na cultura mundial, em pensar o “efeito borboleta” que a ausência deles causaria no  mundo, mas o filme não faz nada disso. A parte da ausência do Oasis, o mundo é exatamente o mesmo. O que é curioso, considerando o quanto eles reverberaram na cultura, inspiraram outros músicos e artistas de outros campos e até pessoas em seu cotidiano. O culto liderado por Charles Manson, que matou várias pessoas na década de 60, dizia se basear na canção Helter Skelter dos Beatles. Se Manson nunca ouviu essa música, será que os assassinatos teriam acontecido? Estaria Yesterday existindo no mesmo universo que Era Uma Vez em...Hollywood do Quentin Tarantino?

Ao invés de explorar as múltiplas possibilidades criativas do ponto de partida da história, o filme se limita a uma história clichê de um sujeito que alcança fama e fortuna apenas para descobrir que nada disso lhe traz felicidade e tudo que ele precisava estava ao seu lado o tempo inteiro. A trama não precisaria recorrer ao realismo fantástico para contar essa história e toda premissa soa desperdiçada em piadas que se repetem o tempo todo. O humor do filme consiste em Jack tocar alguma célebre música dos Beatles para alguém não dar atenção ou sugerir mudanças nesses clássicos da música, fazendo tudo soar como “um filme de uma piada só”.

Tudo isso seria perdoável se ao menos a trama romântica fosse envolvente, mas não é o caso. Ellie devotou cerca de 15 anos, boa parte de sua vida, a ajudar Jack a vencer na música, mas a trama nunca constrói uma motivação convincente para tal. É difícil crer que uma pessoa devotaria a vida por tanto tempo a outra pessoa por conta de uma apresentação em um show de talentos da escola. Mais que isso, Ellie não tem qualquer trama própria, qualquer outro elemento que construa sua personalidade além do fato de que sua vida gravitar em torno de Jack. Por mais adorável que seja Lily James, ela não consegue superar o material limitado que tem em mãos.

Do mesmo modo, apesar Hamish Patel ter uma voz que lembra um jovem Paul McCartney, seu Jack acaba não tendo muita química com Ellie. Claro, as músicas dos Beatles são maravilhosas e impedem que o filme se torne um exercício de paciência, mas acabam servindo como uma muleta afetiva para compensar a falta conexão emocional dos personagens.

Yesterday acaba soando como uma oportunidade desperdiçada, incapaz de fazer jus ao potencial de sua premissa e se reduzindo a um romance genérico. Se a ideia é ver um romance embalado pelas músicas dos Beatles, melhor rever Across The Universe (2007).

Nota: 5/10

 Trailer

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