sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Lixo Extraordinário – Miami Connection


Crítica – Miami Connection


Resenha – Miami Connection
Miami Connection é daqueles filmes que é tão ruim, tão sem sentido que acaba se tornando divertido de assistir. Se houvesse um mínimo de qualidade seria algo genérico, esquecível e sem personalidade, mas é a ruindade que o torna memorável.

A trama foca nos integrantes da banda Dragon Sound, que são liderados por Mark (Y.K Kim) e praticam Tae-Kwon-Do nas horas vagas. Um dos integrantes da banda, John (Vincent Hirsch), se envolve com Jane (Kathy Collier), a irmã de Jeff (William Ergle), líder de uma gangue de motoqueiros que trabalha junto com uma gangue de ninjas para traficar cocaína na cidade. Jeff decide que a banda é uma ameaça e resolve eliminá-los.

Se vocês leram o parágrafo acima com atenção, perceberão que há um salto lógico enorme na sequência de eventos. Qual a razão de Jeff considerar a banda uma ameaça ao tráfico? Eles são só uma banda que canta sobre amizade e acreditar nos próprios sonhos, nada do que eles fazem representa uma ameaça para os negócios ou para Jane (na verdade, o fato de Jeff ser um traficante tem mais potencial para por Jane em risco do que a banda). Ah, você exclama, mas será que não é pelo risco da irmã contar para eles sobre as atividades de Jeff? Bem, não, porque a Jane deixa claro em seus diálogos que não sabe no que o irmão está envolvido, apenas que são coisas sombrias. Então qual o motivo de Jeff querer tanto eliminar a banda? Bem, não há um além da necessidade disso acontecer para mover a trama para frente.


Já que falei na banda, as cenas deles tocando parecem algo feitas para inchar a minutagem, colocando eles para tocar músicas inteiras que duram cerca de cinco minutos, não são lá grande coisa e não tem nada a dizer sobre os personagens. As cenas poderiam cortar depois de alguns versos, porque já teriam servido ao propósito de mostrar que os personagens fazem shows. Ao alongar as cenas, o filme permite que vejamos que boa parte do elenco sequer está se esforçando para fingir tocar. Mark, por exemplo, simplesmente passa as mãos por cima das cordas da guitarra.

O filme inteiro segue essa lógica de eventos inconsequentes determinados aleatoriamente pelo roteiro. O elemento mais evidente disso talvez seja a subtrama envolvendo a busca de Jim (Maurice Smith) pelo pai. Sem qualquer preparação prévia, Jim um dia recebe uma carta dizendo que o pai dele está vivo, surpreendendo os colegas de banda, inclusive Mark, que no momento diz um dos diálogos mais sem noção do filme ao responder à revelação com “pensei que todos nós éramos órfãos”. Como assim? Como Mark chegou a essa presunção? Ele simplesmente supôs que os colegas eram órfãos por não ter visto ou ouvido ninguém se referir aos pais? Não há o menor sentido desse diálogo existir.

Deixando um pouco de lado a fala sem sentido de Mark, Jim segue em um longo solilóquio contando a história triste de sua família falando de costas para os companheiros de banda e de frente para a câmera. O ator Maurice Smith se entrega a um dos choros mais exagerados e artificiais que já vi na ficção enquanto narra sua busca pelo pai. É estranho porque o ator mal começa a falar e já começa a chorar ao invés de ir construindo aos poucos a emoção do personagem e como a fala já começa, digamos, em um ápice, a cada pausa dada pelo ator imaginamos que ele terminou de falar, mas ele continua e continua ao ponto que parece que nunca irá acabar.

Depois dessa cena ninguém mais volta a mencionar o pai de Jim até que, nos últimos minutos o personagem recebe outra carta informando que o pai irá vê-lo. Ou seja, nada desse arco dramático, desde sua introdução à sua resolução depende de qualquer ação direta dos personagens. Não há qualquer relação de causa e consequência com coisa alguma, acontecendo porque o texto determina que precisa acontecer.

Em outra cena, a banda sai de carro e é cercada por dezenas de homens armados. Imaginamos que se trata da gangue de Jeff, mas não, são os músicos que tocavam no mesmo clube que a banda dos personagens e foram demitidos assim que a Dragon Sound foi contratada para tocar no lugar. Agora, os antigos músicos querem matá-los para se vingar e, claro, isso soa forçadíssimo. Afinal, não existem outros lugares para tocar em toda cidade? Se eles conseguem mobilizar dezenas de pessoas para espancar os rivais até a morte, não significa que eles têm fãs o suficiente para garantir trabalho em outro lugar?

Faz menos sentindo ainda que depois de apanharem da Dragon Sound, os antigos músicos procurem Jeff peçam que eles matem Mark e os demais para poderem recuperar o trabalho como músicos, prometendo a Jeff toda a renda deles quando voltarem a trabalhar. Toda essa cena nega o primeiro encontro dos antigos músicos com a Dragon Sound, afinal, se eles estavam revoltados por terem perdido o emprego, de que adianta recuperarem o emprego se eles irão dar a renda toda para um traficante qualquer? Na prática, é a mesma coisa que ficar sem emprego.

Todas essas cenas sem nexo são pioradas pela inexpressividade dos atores que parecem estar lendo suas falas de algum cartaz enquanto filmam. Os diálogos são excessivamente expositivos, com os personagens explicando o que está acontecendo ou o que estão sentido ao invés de devidamente demonstrarem esses conflitos e sentimentos. Isso é especialmente problemático com Y.K. Kim, cujo inglês macarrônico torna tudo que sai de sua boca quase que incompreensível e não fossem as legendas eu sequer teria conseguido entender.

Kim, por sinal, é de fato faixa preta de Tae-Kwon-Do no mundo real. Isso significa que ao menos as cenas de ação são legais, certo? Bem, não. Apesar de ser visível a habilidade de Kim e alguns outros membros do elenco, diferente de filmes como Samurai Cop (1991), onde tínhamos a impressão que ninguém sabia o que estava fazendo, as lutas soam excessivamente artificiais. Isso porque todos os personagens parecem saber de antemão os movimentos que cada um irá fazer, esquivando antes mesmo que o inimigo desfira um golpe ou reagindo ao impacto de um ataque sem que o corpo do oponente tenha chegado próximo ao seu corpo. Além disso, alguns capangas simplesmente ficam parados esperando que os protagonistas ataquem.

Se o início do filme concebe os personagens como pessoas otimistas que cantam músicas sobre amizade e perseguir seus sonhos e falam sobre artes marciais como um meio de alcançar equilíbrio, o clímax do filme os transforma em guerreiros sanguinários que saem chacinando e desmembrando ninjas com espadas, banhando-se com o sangue dos inimigos. Sim, eles estavam furiosos pelo ataque a Jim, mas ainda assim soa uma transição abrupta para um grupo de protagonistas que soava como uma versão adulta dos personagens de Malhação.

Diante de toda a sanguinolência do final, chega a ser hilário que o filme encerre com um letreiro dizendo “Apenas através da eliminação da violência podemos alcançar a paz mundial”. Dado o clímax sangrento, imagino que por “eliminação da violência” o filme quer dizer que é preciso usar a violência para assassinar cruelmente todas as pessoas violentas, o que soa ridiculamente contraditório com a mensagem de paz e equilíbrio que a trama tenta passar.

Protagonizado por lutadores que não sabem atuar e atores que não sabem lutar, Miami Connection é tão incoerente, sem sentido e absurdo que se torna engraçadíssimo. É o tipo de filme que diverte por conta da ruindade.

Trailer


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