domingo, 20 de março de 2016

Crítica - Zootopia: Essa Cidade é o Bicho



Confesso que não estava esperando muita coisa de Zootopia. Aventuras animadas estreladas por animais antropomórficos são uma constante no cinema e apesar do bom humor dos trailers, nada indicava que poderia ser diferente de qualquer outra produção similar. Assim sendo, fiquei bastante satisfeito ao perceber que tinha me enganado e além de uma aventura ágil e divertida, o filme ainda traz um competente comentário social sobre intolerância.

A história se passa em um universo sem humanos no qual os animais evoluíram e formaram uma sociedade similar à nossa. A protagonista é a coelha Judy Hopps (Ginnifer Goodwin/Monica Iozzi) que sempre sonhou em se tornar uma policial da cidade de Zootopia, algo que nunca tinha sido feito por nenhum outro coelho. Superando as dificuldades do treinamento ela entra para a polícia mas é subestimada por colegas e superiores. Quando uma série de desaparecimentos começam a acontecer na cidade, ela vê uma oportunidade de provar seu valor, mas ao curso da investigação seu caminho cruza com a raposa Nick Wilde (Jason Bateman/Rodrigo Lombardi), um malandro que vive de pequenos golpes, e juntos eles tentam resolver o mistério.

A cidade é extremamente criativa, dividida áreas que recriam os ecossistemas dos diferentes animais que lá habitam e tudo é feito levando em consideração as diferentes escalas dos diferentes animais, como os trens, que tem três portas diferentes, ou o bairro dos pequenos roedores, no qual Judy se sente uma gigante em relação ao tamanho diminuto das construções. A cada instante encontramos algo interessante e cheio de frescor a observar neste universo e o filme consegue extrair boas piadas das possibilidades criativas desta cidade, como a cena do departamento de trânsito ou a sorveteria de elefantes. Alguns momentos de humor inclusive parecem mais direcionados aos adultos do que aos pequenos, como o casamento dos roedores mafiosos que faz uma menção direta a O Poderoso Chefão (1972), mas isso não impede que os pequenos apreciem o filme.

Judy e Nick são protagonistas extremamente carismáticos, ela com sua atitude sempre otimista e cheia de energia e ele com sua malandragem e sarcasmo. A relação dos dois se baseia no velho clichê da dupla que se detesta, mas se adora, com um complementando e ensinando algo que falta ao outro. Ainda assim há charme o suficiente para que esta se desenvolva de modo orgânico e fica fácil entender o que um vê no outro, embora o filme escolha por deixar implícito e relativamente em aberto a natureza do relacionamento deles ao fim.

A força da obra, no entanto, reside no comentário social que ela faz. Assim como qualquer grande metrópole do nosso mundo, Zootopia é uma cidade plural, habitada por diferentes espécies, mas isso não significa que eles convivam em harmonia e o filme exibe uma grande dose de preconceito existindo entre os diferentes animais. Tanto que existem vários "estereótipos raciais" do tipo "coelhos são fofos" e "raposas são traiçoeiras", que visam não apenas diminuir essas espécies, como também colocá-las à margem da sociedade. As relações em Zootopia parecem governadas por um tipo de determinismo social, no qual cada um tem uma única e imóvel posição a preencher, tanto que Judy só consegue entrar na força policial graças a um programa do governo, demonstrando a importância do Estado em promover a inclusão e igualdade, mantendo a aceitação das diferenças.

Além disso, nos mostra como mesmo as mais racionais criaturas podem se render a preconceitos antiquados e irracionais quando uma crise se abate sobre a sociedade, transformando imediatamente em inimigos todos aqueles que são diferentes de si. Há também uma crítica ao modo como o governo e imprensa usam o medo como ferramenta de dominação, instigando o pânico na sociedade para se manter no controle de tudo.

Deste modo Zootopia não é apenas uma aventura ágil e divertida, mas também uma importante metáfora sobre preconceito, exclusão social e o uso do medo como ferramenta política.

Nota: 8/10
 
Trailer:
 

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