terça-feira, 31 de março de 2009

Rapsódias Revisitadas - O Nevoeiro


Este não é um filme muito antigo, é apenas de 2007, mas como muito poucos chegaram a assistir este que foi um dos melhores filmes daquele ano.

Escrito e dirigido por Frank Darabont(Um Sonho de Liberdade, À Espera de Um Milagre) baseado num conto de Stephen King, O Nevoeiro nos conta a história de um grupo de pessoas presas em um mercado durante a aparição de um estranho nevoeiro que traz consigo perigosas criaturas. Como é recorrente na obra de King,(embora nem sempre adaptado assim para os cinemas) as criaturas bizarras que povoam suas histórias são apenas um gatilho para colocar os personagens em situações limite onde King, e neste caso também Darabont, discorrerão sobre os cantos mais sombrios e inexplorados da mente humana. Afinal, sem nenhum mecanismo de controle as pessoas conseguem viver pacificamente? Somos essencialmente bons ou irracionais? E o que somos capazes de fazer numa situação de pânico extremo?

Esses questionamentos vão aos poucos sendo levantados no filme enquanto acompanhamos a jornada dos personagens para tentarem sobreviver e é interessante acompanhar aqui que as pessoas das quais esperávamos as melhores condutas, aquelas mais dotadas de saber, seja ele o saber formal personificado por Brent(Andre Baugher), advogado novaiorquino que abandona sua fala polida para assumir uma postura defensiva e fechada, negando-se a tentar compreender o que se passa. Ou seja aquelas dotadas da sabedoria religiosa como a Sra. Carmody(Marcia Gay Harden numa atuação monstruosa), ao invés da compaixão e do desprendimento que esperamos de uma pessoa de fé, ela demonstra arrogância, como vemos na conversa no banheiro, uma completa falta de valorização da vida humana e falta de escrúpulos para usar o medo e desespero das pessoas para persuadi-las a seguir seus ideiais distorcidos. A Sra. Carmody acaba se revelando ainda mais cruel que qualquer monstro, afinal se eles tem a desculpa da irracionalidade, ela não possui essa prerrogativa.

Por outro lado, encontramos atitudes valorosas de onde menos esperamos, sejam elas do pintor David Drayton(Thomas Jane) que demonstra um equilíbrio e racionalidade que não pensamos existir num artista, normalmente tido como uma pessoa egocêntrica ou como alguém distante da realidade; do subgerente Ollie(Toby Stevens), um homem baixinho, gorducho, careca e de meia idade que se mostra mais corajoso e mais hábil em enfrentar os monstros do que qualquer outro ali, quebrando o paradigma hollywoodiano que os heróis precisam ser jovens e bonitos. Vemos também a Sra Ripple uma professora idosa e aposentada que não se nega a fazer nada para ajudar, quebrando essa imagem difundida pela cultura ocidental de que idosos são inúteis ou que se limitam a resmungar.

O filme também é hábil ao mostrar as diferentes reações das pessoas às situações de pânico. Vemos o filho de David regredir metalmente, voltando a chupar o dedo e chamando o tempo todo por sua mãe. Os ignorantes empregados do mercado logo começam a beber pois não conseguem racionalizar o que acontece e uma jovem mãe foge imediatamente do mercado para ver como estão seus filhos em casa. Enquanto isso, David e os outros procuram fortificar o mercado para se protegerem das criaturas.

O roteiro de Darabont ainda é esperto o bastante para não julgar ninguém como bom ou mau(algo que não necessariamente ocorria no conto, pois este era narrado em primeira pessoa pelo próprio David Drayton), como alguém diz em certo momento:"são somente pessoas". Incluindo até referências de que a Sra. Carmody pode até não ser a charlatona que pensamos como fica evidenciado na cena em que um dos insetos pousa sobre ela e não lhe causa mal.

E já que falei das criaturas, devo dizer que o filme também tem sua cota de sangue e sustos em cenas que fazem o espectador pular da cadeira, como quando um personagem tenta ir até o carro pegar a espingarda ou quando as criaturas do nevoeiro atacam o mercado, passando a uma incursão numa farmácia repleta de estranhas e mortais aranhas. A tensão é construída aos poucos ao longo da narrativa, no início vemos David e Brent indo ao mercado e cruzando com vários veículos militares e a aparente calma com que eles reagem a isso apenas nos deixa mais nervosos, ao chegar no mercado David percebe que os telefones não funcionam e que não há eletricidade e nossa tensão se eleva ainda mais, atingindo um nível de medo constante a partir do momento que começamos a ter contato com os monstros do nevoeiro.

Conforme os dias passam no mercado e a situação não aparenta melhora, a Sra. Carmody congrega cada vez mais pessoas ao seu redor, fazendo-as acreditar que é uma mensageira de Deus e convencendo-lhes a dar cabo de sua solução final para o problema. Se a explicação para a presença do nevoeiro soa desnecessária(no próprio conto não havia uma origem definida, apenas uma menção à base militar nos arredores da cidade), a cena do "sacrifício" faz todo sentido para a ambiguidade que Darabont queria imprimir ao seu final.

Bom, para analisar a obra de modo satisfatório preciso tecer comentários sobre seu final, então se você, caro boêmio, não viu o filme, FIQUE LONGE DAS PRÓXIMAS LINHAS, NÃO AS LEIA DE MODO ALGUM!!!É SÉRIO, NÃO LEIAM PORRA!!! O final evidencia ainda mais o ponto de vista de Darabont sobre os efeitos do medo nas pessoas e se a atitude de David Drayton nos parece chocante, nenhum de nós pode realmente condená-lo pelo que fez. Justamente quando pensávamos que o filme se encerraria de uma maneira absurdamente brutal, o diretor Frank Darabont é ainda mais sádico em sua análise do comportamento humano ao mostrar a névoa se dissipando e entre os militares David vê a jovem mãe do início do filme, sã e salva com seus dois filhos, o que nos leva a duas possibilidades:

1) A Sra. Carmody pode não ser uma charlatã, afinal a névoa se desfaz depois do que o "sangue dos culpados" é entregue às criaturas e vale lembrar quem em determinado momento ela diz que "apenas os dignos sobreviverão" e a jovem mãe poderia ser uma dessas pessoas. Como católico eu me sinto inclinado a desconsiderar essa possibilidade, me recuso a crer que Deus teria escolhido como mensageira alguém tão vil como a Sra. Carmody e que não difere em nada das centenas de bispos, sacerdotes, pastores, médiuns, pais de santo, curandeiros e quaisquer outro tipo de líder religioso que vemos se proliferar pela TV prometendo acabar com todos os males que afligem as pessoas. Ao contrário das criaturas da névoa, este tipo de monstro infelizmente parece não morrer.

2)Se todos não tivessem se amedrontado diante do nevoeiro e saíssem de imediato do mercado, teriam encontrado os comboios militares e conseguido sobreviver assim como aconteceu com a jovem mãe. Sendo assim, o medo irracional teria sido a ruína de todos, o mesmo medo que levou David Drayton a uma atitude tão drástica e que depois se revelou inútil, mostrando que a irracionalidade e o barbarismo também fazem parte da psique humana.

Devo salientar, entretanto, que não existe uma hipótese certa ou errada, a seu modo todas estão certas, deixando a cargo do espectador refletir a respeito delas. É bom que em meio a centenas do blockbusters acéfalos ainda existe cinema feito para levar a sua audiência a pensar, mesmo que para isso precise deixar-lhes com um gosto amargo na boca ao final do filme. O Nevoeiro é uma rapsódia que sem dúvida merece ser descoberta e revisitada.

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